Arquivos Mensais: Julho 2009

Eu fiquei muito bêbado pela primeira vez em 1994. Já fazia dois anos que eu e meus amigos bebíamos pouco mais do que socialmente, mas foi nesse ano que qualquer convenção social foi pro espaço e o litro de vodka ruim veio para o meu fígado.

Não era uma ocasião especial ou data comemorativa. Só uma noite de final de semana qualquer, onde dois meninos que se achavam muito melhores do que eram de verdade decidiram fazer uma burrada. Fabinho, o amigo com quem dividi a fatídica garrafa de vodka ruim (acompanhada de uma garrafinha de coca-cola, pra disfarçar), foi quem deu a ideia. Ou pelo menos é assim que gosto de lembrar, mas a verdade é que não lembrar daquela noite não é uma das coisas que faço com a devida propriedade. Tenho algumas recordações esparsas, que se parecem mais com fotografias ou com uma série de slides, do que com lembranças reais. Em uma dessas apresentações de slides, eu e Fabinho estamos em um boteco bebendo e conversando sobre o quanto o fígado metaboliza do álcool que ingerimos. Ele diz 100%, eu digo 50%. Em outra, estamos os dois abraçados e caindo do passeio na rua, onde um carro nos erra por alguns centímetros. Depois de um tempo, de forma muito desconexa, eu estou em cima do coreto da pracinha, Fabinho é jogado no porta-malas de um carro e vai pra a o hospital, eu sou escoltado por um amigo até parte do caminho para a minha casa, alguém me chama num beco escuro e eu me assusto. Corro pra casa e, no próximo slide, estou deitado em minha cama, tentando explicar para os meus pais porque eu bebi tanto.

A falta de memória da noite anterior é compensada pelas memórias claríssimas que tenho da manhã seguinte. Assim que acordei e percebi o que tinha feito, eu queria sumir. Meus pais estavam já de pé, preparando o café da manhã na cozinha e eu podia ouvir o barulho de louças e talheres sendo manuseados, o barulho da água correndo, o barulho do chicote estalando…

Levantar da cama foi difícil. Conversar com meu pai, eu e ele sentados à mesa da sala foi muito difícil, mas nada foi mais dolorido do que ver a cara de decepcionada da minha mãe e dizendo: “eu sofri com o alcoolismo do seu avô durante anos. Não vou passar por isso de novo”.

Foi tudo o que precisei ouvir para nunca mais beber daquele jeito. Não vou tentar enganar ninguém dizendo que nunca mais fiquei tonto, mas nunca mais bebi vodka (boa ou ruim) e nem me permiti ficar tão maluco igual daquela vez. Porque eu não queria magoar a minha mãe, claro, mas também porque eu sei que nasci em uma família de alcoólatras e eu não me queria me tornar mais um problema para o grupo familiar. Toda família já tem problemas suficientes sem precisar de um babaca enchendo a cara e fudendo com o pouco de paz que podemos desfrutar em conjunto.

Eu sei que vivo em uma família onde o alcoolismo é uma constante porque me contaram. Porque já ouvi várias pessoas da família dizendo em diferentes ocasiões que precisam se controlar ou não parariam de beber nunca. Minha mãe é uma dessas. Ela ama qualquer coisa que tenha álcool na fórmula e, se não fosse uma pessoa muito inteligente e equilibrada, tenho certeza que seria uma bêbada de marca maior. Meus tios tornaram esse discurso, de que a família é alcoólatra, mais aberto à medida que seus filhos e sobrinhos foram crescendo, mas todos já sabemos desse traço há tempos. De alguma forma, eu deveria me considerar um tanto sortudo por tomar antidepressivo. É que desde que comecei a tomar remédio, há mais de dois anos, não bebo mais. Eu tentei! Mais de uma vez eu tentei beber mesmo sabendo que não era para beber muito. Descobri da pior maneira possível que cerveja (a bebida alcoólica de minha preferência) e meu remédio não se entendem…

Uma das recordações claras que tenho de festas de família é da minha tia Dalva, andando de um lado para o outro, sempre com um copo ou taça de qualquer coisa alcoólica na mão, conversando com meu pai ou com um dos irmãos dela sobre como ela “não se encaixava nesse esteriótipo familiar de alcoolismo”. E ela falava isso para um e tomava mais um copo. Falava a mesma coisa com outro e tomava mais outro copo. Tornava a repetir a mesma coisa para o um (“eu não sou alcoólatra como vocês dizem”) e mandava mais vinho ou run ou Bacardi ou licor ou cerveja ou Champanhe para goela abaixo.

Tenho infinitas recordações lindas da minha tia Dalva, mas lembrei disso hoje, quando fui ajudar minha mãe a encaixotar as coisas do apartamento dela. Dalva morreu no último dia 19 de abril e deixou para trás uma família enlutada, um apartamento cheio de vazio e muitas lembranças legais. Como ela nunca foi casada ou teve filhos, o apartamento e todas as coisas da Dalva ficaram para os meus avós, que mal sabiam o que fazer com a pensão que a filha deixou para eles e muito menos com o apartamento que, à partir de amanhã, estará de fato vazio.

Aos poucos, bem poucos, as coisas estão se ajeitando e os velhos estão tomando decisões. Eles querem construir uma casa nova, plana, perto da (futura) casa nova dos meus pais e querem vender o apartamento da Dalva. Decidiram que vão passar aquilo pra frente e não ficar se agarrando à algo que vai lembrá-los da filha que não está mais aqui. Antes de vender, fui convocado pela minha mãe para ajudar a desmontar o apartamento e encaixotar tudo. Foi isso o que fizemos hoje.

É aqui que explicar o que aconteceu fica difícil, porque é algo ao mesmo tempo esperado (até mesmo necessário), mas muito complicado de lidar.

Cheguei no apartamento da Dalva, dei um abraço em um tio que estava lá e fui ver a minha mãe, que parecia muito bem. Ela até me disse que estava aliviada e sentindo como se aquilo que estávamos fazendo era a atitude mais acertada. Fui direto para os quartos, sacos de lixo e supermercado nas mãos, para empacotar DVDs, fitas VHS, uma infinidade de livros, computador, enfim e tudo aquilo que compõe as posses de uma pessoa. Estávamos compartimentando todos os bens de uma mulher que viveu mais de sessenta anos! É algo complicado de se fazer, mesmo que essa pessoa não fosse da família.

Entre ir de um quarto a outro, procurando por mais sacolas e caixas de papelão, vi minha mãe encostada à porta do fundo, chorando como uma criança. Sua mão direita contra o rosto, como se quisesse esconder com um gesto qualquer os soluços e lágrimas que eram evidentes. Não acho que me lembro de ter visto minha mãe chorar assim em qualquer outro momento da minha vida e foi de cortar o coração. Eu a deixei chorar e tudo o que ela queria e saí de perto quando meu tio, irmão dela, se aproximou para confortá-la (ou talvez para chorar junto, não sei. Eu não fiquei para ver. Era um momento entre irmãos. Quem não é filho único sabe a força que existe até na troca de simples olhares entre irmãos e eu nada poderia fazer naquele momento). Fiquei e ajudei a fazer o que me pediram. Encaixotei, empacotei, carreguei, montei e desmontei, levei, trouxe, lacrei e etiquetei.

Faz pouco mais de duas horas que saí do apartamento da minha tia (que agora é o apartamento da minha avó) e voltei pra casa. Só agora consegui comer alguma coisa e relaxar um pouco para poder concatenar ideias e colocar uma palavra na frente da outra. Ainda não desenhei nada hoje, como eu deveria, nem criei porra nenhuma, mas isso é o de menos. De certa forma, é até melhor assim. Talvez eu ainda faça alguma coisa antes de dormir, mas não estou preocupado em produzir.

Hoje, com alcoolismo ou antidepressivos, o que cairia bem mesmo era um drink.

À sua saúde, Dalva!

Tim, tim.

Leandro

No verão de 2001, enquanto ainda éramos um bando de moleques universitários não formados, eu e três amigos nos juntamos para viajar a Brasília, onde participaríamos de um encontro de estudantes de comunicação. O grupo era composto por Flávio, Marcos, Rodrigo e eu, sendo que um quarto membro, a Aline, se juntou a nós quando chegamos em Bsb.

Oficialmente, a viagem era uma chance de participar de um ENECOM. Eu e Marcos não tínhamos participado do encontro anterior, que aconteceu em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, e passamos um ano ouvindo histórias maravilhosas a respeito de como aquela viagem tinha sido espetacular para todos que foram conhecer o frio do sul do país. Mas a verdade era que o ENECOM era um pretexto. O que queríamos era conhecer Brasília! Rodrigo é um nativo e ofereceu a casa dos seus pais para nosso pouso. Isso significava um conforto infinitamente maior do que qualquer tipo de alojamento que conseguíssemos na faculdade onde o encontro seria realizado, além de proporcionar uma economia considerável em comida e transporte. Eu e Marcos revesaríamos o volante da Belina que o pai do Rodrigo nos emprestaria e poderíamos rodar pela capital sem compromissos com horários do transporte público. Além de conhecermos a família do Rodrigo e boa parte de Bsb, Marcos à época namorava com Aline, outra nativa, o que tornava a viagem ainda mais providencial.

Como planejamos que fosse, aconteceu. Saíamos todos os dias para conhecer “a capital do meu país”, visitando os pontos turísticos, andando pelo planalto central e se encantando com as coisas que são só dali.

(Se vocês me permitem um pequeno parêntese, aqui vai um fato. Os primeiros dias em Brasília foram surreais. Bsb é um lugar diferente de qualquer outra coisa no mundo e, se você pretende visitar a cidade, eu recomendo uma estadia mínima de sete dias, já que os primeiros três ou quatro dias serão gastos se acostumando com a sensação de ter sido abduzido para um lugar que não deveria existir, mas que está lá).

De noite, após um dia inteiro de andanças, tornávamos a nos amontoar na Belina azul e íamos para a Universidade Católica de Brasília, que fica em Taguatinga, para festas, bebedeiras, péssima música e conversa fiada com gente de outras partes do país.

Eu e Marcos, numa dessas festas, (na festa à fantasia, na verdade) conhecemos um grupo de meninas do Pará. Todas muito simpáticas, elas disseram que estavam se divertindo, mas que, ao mesmo tempo, estavam um tanto desanimadas porque uma das meninas do grupo não pode ir à festa daquela noite, alegando cólicas ou dor de cabeça. Ela estava melhor na noite seguinte, no entanto, e foi aí que eu conheci Heloísa.

Heloísa era pouco mais que uma menina, com 19 anos incompletos e eu, do auge dos meus 21, não era muito mais do que um menino que achava que sabia de tudo. Não lembro de detalhes a respeito de como nos conhecemos (lembre-se as noites eram cheias de bebedeiras, como já disse), mas ficamos pela primeira vez no dia que nos vimos e continuamos a nos beijar todos os dias seguintes.

Nos despedimos (“despedimo-nos” é tão feio…) às quatro da manhã do último dia do encontro, com endereços de e-mails devidamente trocados e promessas de um dia nos reencontrarmos.

E-mails foram trocados de fato, como prometemos um ao outro, mas a intensidade desses diminuiu gradativamente ao longo dos meses até que acabou. Eu ainda recebia uma mensagem de vez em quando, vinda do norte, com palavras cheias de carinho e, às vezes, eu retornava, mas era raro. Dois anos depois, em 2003, eu comecei a namorar e perdi contato com Heloísa de vez.

Oito anos se passaram desde que nos vimos pela primeira vez.

Há poucos dias, graças às redes sociais internéticas, eu e Heloísa nos reencontramos. Não fisicamente, como havíamos nos prometido antes, mas, de repente, depois de anos e anos sem ouvir falar um do outro, nós podíamos trocar ideias em tempo real e nos interarmos a respeito de nossas vidas. Nessa hora eu já estava solteiro há quase um ano e ela estava namorando há mais de dois. Um namorado que, em suas palavras, era “maravilhoso”, mas isso não impediu que conversássemos. E conversar a gente fez. Todos os dias. Às vezes três vezes ao dia, às vezes madrugada adentro, às vezes pelo telefone, às vezes no meio da tarde, mas sempre conversávamos.

Não demorou para que carinho se tornasse insinuações e para que insinuações se tornassem flertes e para que flertes se tornassem indiretas, quase sempre “indiretas” sem o prefixo. Os oito anos longe nos dava material suficiente para contarmos uma vida de novidades um para o outro e, ao mesmo tempo, como acontece com pessoas especiais, era como se nunca tivéssemos deixado de nos falar.

Eu gostaria que essa história terminasse aqui, com uma frase do tipo: “e eles conversaram um com outro pela internet para sempre”, mas não é assim que termina.

Meu namoro, esse que eu disse antes que já acabou, foi todo à distância. Apesar dela se mudar com alguma frequência, sempre moramos a uma distância tolerável um do outro. E como eu a amava profundamente, viajar para vê-la nunca foi uma dificuldade. Pelo contrário, sempre foi um prazer enorme. Então eu conheço bem as vantagens e desvantagens de se namorar à distância e é por isso que posso dizer, com conhecimento de causa, que não quero fazer isso de novo. Não quero nunca mais ter que ler numa janela de MSN a frase “meus planos são terminar com vc na próxima vez que nos encontrarmos“. Não quero brigar pela internet, não quero estar longe quando eu tiver uma novidade incrível para contar ou quando ela for promovida. Não quero ser incapaz de consolá-la quando ela precisar de consolo, nem quero chorar sozinho quando eu precisar chorar.

Mas ninguém pensa nessa parte do relacionamento quando está à distância. Não e não. A distância garante a fantasia, o sonho, a esperança, a promessa. Quem não está aqui e só chega através de palavras, na maioria das vezes, bem escolhidas, representa aquilo que pode ser. E o poder do “pode ser” é infinito! Muito maior do que qualquer poder que o “maravilhoso” ao lado use. Porque o “pode ser” não é concreto, não é real, faz parte do reino da faz-de-conta, do mundo mágico que criamos para que aquela pessoa do outro lado da tela seja perfeita.

Eu não sou perfeito e Heloísa não é perfeita. Somos perfeitos um para o outro? Talvez. Mas ela não está aqui e eu não estou em Belém do Pará. É lindo pensar que podemos largar tudo e todos que nos cercam para vivermos felizes para sempre em Brasília, por exemplo, mas isso não vai acontecer. E eu não quero mais namorar longe. Como já disse, passei mais de cinco anos fazendo isso e foi tempo suficiente para entender que prefiro o tédio de ser o maravilhoso ao lado do que ser a promessa ao longe.

Por isso, na última sexta-feira, de coração partido, eu disse para Heloísa que iria “sair da frente dela um pouco”. Apaguei alguns recados que ela tinha me deixado na tal rede social onde nos encontramos, não ligo mais o MSN e estou me concentrando em trabalhos que preciso terminar há tempos e que já estão se arrastando mais do que deveriam.

Não sei quanto tempo essa “sumida” vai durar. Não sei se estou perdendo a chance de “conviver” com a mulher da minha vida ou qualquer coisa desse tipo. Mas se algum dia eu ler “vou terminar com vc” numa janela de MSN de novo, eu entro num frenesi psicótico e vou andando daqui até Belém, parando só para matar prostitutas com uma colher. Por assim dizer…

Concentrar tem sido difícil. Eu penso muito nela naquele período do dia que vai da hora em que acordo até a hora que vou dormir, mas consegui me manter firme o suficiente para terminar esse texto. Meu coração ainda dói e acho que vai continuar doendo por algum tempo, afinal, eu também estou dando um tempo em uma promessa. Mas sei que as coisas vão melhorar à medida que formos caminhando.

Se trabalharmos com o coração, talvez esse caminhar seja em direção um do outro.