Arquivos Mensais: Setembro 2009

A notícia se espalhou rápido. A princípio, ninguém queria acreditar (era muito horrível para ser verdade), mas as reportagens não paravam e era chegado o momento de aceitar: o Kolinsky estava extinto.

É de conhecimento universal que os melhores pincéis do mundo são feitos de pelo de kolinsky. São também os pincéis mais caros, mais apreciados e mais cobiçados. A comparação com pincéis de doninhas, de rabo de pônei ou de orelha de boi não chega a ser justa. O grande Emanuel de LaCoreza disse, pouco antes de sua morte, que o prazer de usar um kolinsky legítimo era maior do que aquele oferecido pelas mulheres. O fato de de LaCoreza ter sido uma bicha maluca que morreu asfixiado com o falo de um oriental particularmente bem dotado durante um jogo erótico em um quarto de hotel no Vietnã, não foi levado em conta e a citação pegou. Frases do tipo “troquei minha mulher de 40 anos por dois kolinsky série 20″ se tornaram populares e, há quem diga que, se vivo, de LaCoreza deveria ser responsabilizado pela extinção dos kolinsky.

TVs de todas as aprtes procuraram os pintores de suas regiões para explicar o que essa extinção significaria para o mundo das artes. As respostas, é claro, variavam desde “o mundo está acabando” (frase mais comumente ouvida entre lágrimas e desespero e na França), até “não muda nada. Nós usamos lápis” (resposta padrão na Rússia).

Mas a verdade é que não importava o que qualquer pessoa dissesse. Todos sabiam que quem daria a palavra final sobre o assunto, quem deveria ser ouvido de fato, quem importava. Xistóvam Sabido (nome artístico)! O maior pintor vivo. O mais celebrado artista da humanidade. Talento raro, tanto quanto artista quanto como negociante. Suas obras estavam espalhadas pelo mundo, vendidas a preços de turmalina Paraíba. Ainda assim, a maior parte dos críticos também admirava seus trabalhos, celebrando Sábido como um exemplo de artista completo.

Sábido vendeu sua entrevista por uma quantia de sete dígitos. As negociações foram feitas através de um de seus agentes, já que não era de conhecimento geral onde o artista morava. Boatos diziam que ele tinha propriedades espalhadas pelo mundo todo, o que era verdade e só dificultava ainda mais a sua localização. No entanto, em uma manhã nublada de terça-feira, em um estúdio de TV em Nova York, Xistóvam falou a uma audiência estimada de alguns bilhões.

“A extinção do kolinsky significará o fim de uma era”, disse o artista em seu tom de voz grave e pausado. “Sim, no futuro, porque ainda acredito que poderemos encontrar kolinskys em algum canto do mundo, esquecidos da humanidade”.

E a confusão se instaurou.

É preciso entender que artistas são pessoas não muito sociáveis. São uma raça de gente que passa a maior parte de suas vidas em seus estúdios ou ateliês, criando (às vezes muito, às vezes nada), na maior parte do tempo, sozinhas. Para esse povo, uma convenção de pais e professores pode ser um desafio, uma festa pode ser a ideia que eles têm de purgatório e um show de estádio, desses que reúnem mais de 50 mil pessoas, é o próprio inferno.

Agora, partir em busca de criaturas extintas (ou que se acredita estarem extintas) é um desafio mesmo para profissionais, para aventureiros de carteirinha e para criptozoólogos. Não é difícil imagina então que, quando esses artistas de traquejo social zero, que mal sabem amarrar os próprios cadarços, foram em busca do “último kolinsky”, o que encontraram foi morte, desaparecimentos, loucura, insanidade, pânico e desespero.

Vários dos grandes artistas do mundo morreram em tentativas frustradas de encontrar um bicho que seria o derradeiro de sua espécie.

Logo, os quadros e obras desses artistas se valorizaram e foram vendidos por preços antes impossíveis. Mas as obras minguaram e não demorou para que todos (ou quase todos) os trabalhos dos “caçadores de kolinsky” (que é como a imprensa catalogava ou autores desses obras) saíssem do mercado. Quem as comprava raramente revendia. É claro que o mercado negro ainda estava funcionando a todo vapor, porque o mercado negro está sempre funcionando, mas o grosso da coisa deixou as casas de leilões e foi parar em museus ou na parede das casas dos ricos e famosos.

Quem ainda estava no mercado, produzindo o que os críticos chamavam de “o melhor trabalho em uma carreira que parecia não ter para onde evoluir”, era Xistóvam Sábido. Seus quadros atingiram preços estratosféricos e, ainda assim, os colecionadores, museus e galerias compravam o que podiam. Em um incidente particularmente interessante, dois possíveis compradores japoneses saíram no tapa durante um leilão em Londres, antes mesmo que o pano que cobria a obra tivesse sido levantado.

Às vezes, durante alguns períodos de falta de notícia, os jornais davam voz a organizações como a Sociedade Protetora dos Animais e a PETA, que acusavam artistas de estarem matando qualquer bicho (ou criança) que se parecesse com um kolinsky. Representantes indignados contavam trágicas histórias e apresentavam fotos e vídeos perturbadores de pilhas de animais mortos e sem pelos, esquecidos em alguma floresta ou escondidos em galpões clandestinos.

Quando esse tipo de reportagem começava a chegar às ruas, e o povo iniciava um burburinho a respeito de quem deveria ser o culpado por aquelas crueldades, notícias do avistamento de um kolinsky eram transmitidas ao redor do mundo e uma nova caçada recomeçava.

Enquanto isso, confortavelmente instalado em sua casa escondida, Xistóvam Sábido continuava pintando com seus pincéis kolinsky, feitos por ele e por sua mulher, ali mesmo, usando o pelos dos kolinskys que eles criavam no quintal dos fundos. Caso a necessidade se apresentasse, como tinha acontecido outras vezes, um dos animais de suas coleção era solto em algum lugar do mundo, e Sábido e sua mulher acompanhavam o noticiário para ver quantos de seus concorrentes tinham morrido, sumido ou ficado maluco.

E eles riam sozinhos, brindando em taças de cristal cheias de vinho do porto, o plano que elaboraram juntos e que dera certo.

Por Glayson Ramos

Para o povo de Ilina, não havia o tempo. Sabiam que nasciam e morriam, que deviam dormir e acordar, procurar alimento e o conforto de conhecer a pele de seus iguais. Sabiam que o mais novo e o mais velho precisariam que a primeira e a última migalha fossem colocadas em suas bocas. Ilina era umas das mil palavras que esse povo usava para canto e também o nome que deram para a voz que surgiu quando a pequena Bevhi amadureceu.

Chamavam a si mesmos de orfirs, pois eram os ouvintes. Orfir também fora o grande patriarca que conduziu seu povo para o coração da mãe primeira, onde não havia mais inverno, nem trovões. Os mais jovens ouviam que Orfir havia tornado todos igualmente belos e ensinado o valor de cada palavra naquela terra sem ambição.

Ilina era a vigésima matriarca desde Eury, que quer dizer piedosa. Eury foi a filha que disse não a Orfir quando Rund nasceu. Orfir queria que Rund fosse entregue ao grande lago para que outros como ele não viessem. Orfir teve mais três filhos antes de fazer as pazes com Eury. Os mais velhos contam que Orfir sabia que seus ossos queriam se encontrar com os de Rund. Por isso, antes de ficar fraco demais disse que Eury seria a matriarca, pois só a mãe saberia ser justa os outros runds, que significava sem voz.

Eury decidiu que um rund cresceria com os orfirs até que pudesse arrancar sozinho um parcar para se sustentar. Mas este parcar não deveria se tornar alimento. O rund deveria usá-lo para alcançar o alto do último muro e pegar o caminho de volta para fora da mãe primeira. Nenhum rund voltaria a ser afogado no grande lago, mas ele teria que enfrentar novamente o terrível frio para sobreviver.

Ilina amou demais Amog e se desesperou quando percebeu que ele era um rund. Como matriarca, conhecia palavras que Orfir proibiu e que Eury decidiu que seriam o segredo dos runds, pois seriam o conforto dos exilados. Por isso, Ilina falava a Amog sobre essas coisas que não conhecia.

Ela dizia que ele deveria evitar os animais compridos como os parcar, pois tinham a morte nos lábios. Sem entender por que, ela dizia que Amog encontraria motogs muito maiores que os plantados pelos orfir e que haveria frutos nesses motogs. Ela explicou que no inverno uma grande bruxaria fazia com que a água virasse pedra, o chão ficasse fofo e o frio fosse terrível. Ela, que nunca conheceram o frio, disse a Amog que pele peluda de um animal faria o inverno doer menos.

Amog demorou parar arrancar o parcar, mas chegou o dia em que Ilina devia repetir as palavras que Orfir disse a Eury e foi assim que ela falou:

O pai Orfir disse para a mãe Eury que o sol era um pai maior. Os runds não devem temer o pai Sol, mas se assustarão quando ele invadir tudo. Os runds são filhos do pai Sol e a visão é o presente dele para os que não têm voz para viver dentro do coração da mãe terra. Eu que não vejo invejo as maravilhas que você vai ver e não poderá me contar”.