MINX – Existe essa coisa de quadrinhos para meninas?

logo da Minx
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Em 2008 a DC Comics (editora que publica Batman, Superman, Flash, Mulher-Maravilha, entre outros) lançou nos EUA uma linha de histórias em quadrinhos voltada para o público feminino.

Chamada MINX, as revistas publicadas sob esse selo tinham como público-alvo meninas pré-adolescentes e adolescentes que, por lá, entraram no mundo das histórias em quadrinhos através dos mangás (quadrinhos japoneses).

Aqui cabe uma explicação. Puxa uma cadeira aí porque eu vou ser um tanto didático agora.

O público consumidor de quadrinhos nos Estados Unidos é composto majoritariamente por homens adultos. Essa faixa de consumidores é povoada, em grande parte, por consumidores de super-heróis. Isso significa que crianças (meninos ou meninas), mulheres e velhos constituem um enorme mercado em potencial que as editoras que atualmente trabalham com quadrinhos não conseguem atingir de forma satisfatória.

O mercado de quadrinhos japonês, por outro lado, é enorme. Lá existem quadrinhos para todo mundo. E, se você não tem ideia do que estou falando, saiba que esse “todo mundo” aqui é o mais literal possível. Quadrinhos para donas de casa, para esportistas, quadrinhos para bebês, para idosos, para meninos, eróticos, para quem gosta de xadrez, para quem gosta ping-pong e assim por diante. Nesse universo de diferentes títulos existem, é claro, quadrinhos para meninas.

Um dos mais famosos estúdios japoneses de criação voltada para o público feminino é o CLAMP. Acima, capa de uma das criações desse estúdio, o mangá Chobits
Um dos mais famosos estúdios japoneses de criação voltada para o público feminino é o CLAMP. Acima, capa de um dos títulos desse estúdio, o mangá Chobits

À medida que os mangás começaram a tomar o mercado ocidental, vários desses títulos para meninas apareceram por aqui. Foi uma questão de tempo (pouco tempo) para que as meninas ocidentais descobrissem as maravilhas de histórias em quadrinhos que não eram sempre povoadas por homens anabolizados vestindo colantes ou mulheres de anatomia impossível, criadas por homens que gostariam de ser aqueles personagens anabolizados com colantes. E o melhor, esses mangás estavam sendo vendidos fora das lojas especializadas em quadrinhos, lar dos adultos viciados em super-heróis. Os mangás estavam sendo (e ainda são) vendidos em livrarias ou em lojas de mangás e cultura pop japonesa. Ambos lugares mais convidativos às adolescentes do que as lojas de quadrinhos tradicionais.

A DC Comics percebeu esse movimento, identificou uma fatia de mercado onde poderia atuar e foi a partir daí que a MINX foi criada.

Em teoria, a MINX era tudo o que o mercado queria. Quadrinhos em preto e branco (como os mangás), produzidos em edições com mais páginas, que apresentavam histórias completas (sem a necessidade de continuações infinitas), e produzidos por criadores de peso da indústria.

A linha acabou menos de um ano após ter sido lançada, devido às baixas vendas de seus títulos.

Capa de Emiko Superstar
Capa de Emiko Superstar

Hipóteses para o fim foram levantadas durante semanas e a internet ficou povoada de novos motivos em cada blog ou site especializado onde existia alguém que soubesse soletrar minimamente. Entre essas hipóteses, as mais comentadas foram a falta de um trabalho de marketing mais agressivo por parte da DC, as poucas criações feitas por mulheres na primeira leva de títulos e as falhas da distribuidora em colocar as revistas da MINX nas prateleiras corretas das livrarias.

Se vocês me permitem uma opinião pessoal, eu acho que mesmo que essa não tenha sido a principal causa do problema, não mataria que mais mulheres tivessem participado da criação das revistas da MINX. De todos os títulos da linha, três foram feitos por mulheres: Emiko Superstar (de Mariko Tamaki), Burnout (de Rebbeca Donner) e Token (de Alisa Kwitney). São três de doze. O que é ridículo, tendo em vista que dois dos maiores sucessos adolescentes contemporâneos são feitos por mulheres: Crepúsculo e Gossip Girl.

A questão do marketing foi provada como sendo bobagem por várias fontes confiáveis. A DC promoveu os títulos (incluindo peças promocionais e eventos em conjunto com a revista Seventeen). Mas uma das implicações dessa hipótese é que promover material original para meninas é mais difícil e oneroso do que a editora imaginava.

O que não seria nada oneroso seria a disposição dos títulos nos lugares corretos. A distribuidora Randon House colocou tudo da MINX nas sessões de graphic novels, junto com os títulos consumidos por homens adultos que não eram o público-alvo da linha. Relatos de vários trabalhadores de lojas de quadrinhos (e livrarias) são variações de: “na minha loja existe uma sessão de mangás e uma sessão infanto-juvenil que são povoadas por meninas. Elas nem olham para o restante da loja porque sabem onde estão as coisas que elas gostam. Nenhum título da MINX ficava próximo dessas sessões. Eu poderia ter mudado os títulos de lugar na loja, mas a catalogação no computador ficaria prejudicada e os outros funcionários não saberiam o que fazer“.

Um fenômeno interessante foi o fato de homens mais velhos terem comprado e gostado dos títulos da MINX e, na minha opinião (se você me permite de novo), reside aqui o grande problema da linha.

A net está cheia de relatos de homens que dizem que, apesar de não serem o público-alvo, adoraram esse ou aquele título. Agora procure por relatos desses mesmos homens a respeito de Gossip Girl ou, para usar outro exemplo, a versão para o cinema de Sex and the City. Esses dois são bons exemplos (junto com uma tonelada de mangás) de como um material focado em um determinado público se comporta. Que homem nos seus vinte e poucos anos, heterossexual, solteiro e por livre e espontânea vontade foi ao cinema assistir Sex and the City? Não tenho dados concretos aqui, mas me arrisco a dizer que essa faixa de público não representou nem 1% da arrecadação total do filme, incluindo aluguel e venda de DVDs.

Capa de Burnout
Capa de Burnout

Não estou dizendo que esses homens são obrigados a detestar Crepúsculo ou Gossip Girl ou Sex and the City, mas que as pessoas para quem essas produções são voltadas as amam! Identificam-se com elas, as tornam parte de suas vidas.

É estranho pensar que uma história não pode agradar a todo mundo para fazer sucesso, porque é uma afirmação contraditória e que vai contra o senso comum. Mas talvez estejamos falando cada vez mais de um mercado de nicho, onde definir o público-alvo e o atingi-lo deixa de ser um trabalho de tentativa e erro e passa a ser uma necessidade para a sobrevivência de um determinado produto cultural. Stephen King, em seu livro de memórias, diz que isso é impossível. Nas palavras do mestre do terror: “não existe um grande reservatório de ideias onde romancistas vão pescar. Não se pode mirar um livro como um míssil, em outras palavras. Se fosse assim, todos os romances publicados seriam best-sellers e a grande quantidade de dinheiro paga para alguns seletos escritores não seriam necessárias. As editoras iam gostar disso“.

Comecei esse texto perguntando se existem quadrinhos para meninas e tenho que admitir que sim. Se não existissem, essa enorme quantidade de mangás que é feita por e para meninas não estaria sendo vendida todo mês. Mas, ao mesmo tempo, abre-se aqui uma nova dúvida: dividir a produção cultural em segmentos é o caminho para ser bem-sucedido nos dias de hoje?

Será que já chegamos ao ponto onde livros e revistas em quadrinhos e séries de TV têm que se fechar em um segmento para sobreviverem?

Eu quero acreditar que não, mas a verdade é que eu não sei.
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Capa de The Plain Janes
Capa de The Plain Janes

PS: de todos os títulos já lançados da linha MINX, The Plain Janes (escrito por Cecil Castellucci e desenhado por Jim Rugg) foi o único que li e tenho que dizer que gostei bastante.

Leandro Damasceno
Belo Horizonte,  março de 2009

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