Um drink que não pode ser

Eu fiquei muito bêbado pela primeira vez em 1994. Já fazia dois anos que eu e meus amigos bebíamos pouco mais do que socialmente, mas foi nesse ano que qualquer convenção social foi pro espaço e o litro de vodka ruim veio para o meu fígado.

Não era uma ocasião especial ou data comemorativa. Só uma noite de final de semana qualquer, onde dois meninos que se achavam muito melhores do que eram de verdade decidiram fazer uma burrada. Fabinho, o amigo com quem dividi a fatídica garrafa de vodka ruim (acompanhada de uma garrafinha de coca-cola, pra disfarçar), foi quem deu a ideia. Ou pelo menos é assim que gosto de lembrar, mas a verdade é que não lembrar daquela noite não é uma das coisas que faço com a devida propriedade. Tenho algumas recordações esparsas, que se parecem mais com fotografias ou com uma série de slides, do que com lembranças reais. Em uma dessas apresentações de slides, eu e Fabinho estamos em um boteco bebendo e conversando sobre o quanto o fígado metaboliza do álcool que ingerimos. Ele diz 100%, eu digo 50%. Em outra, estamos os dois abraçados e caindo do passeio na rua, onde um carro nos erra por alguns centímetros. Depois de um tempo, de forma muito desconexa, eu estou em cima do coreto da pracinha, Fabinho é jogado no porta-malas de um carro e vai pra a o hospital, eu sou escoltado por um amigo até parte do caminho para a minha casa, alguém me chama num beco escuro e eu me assusto. Corro pra casa e, no próximo slide, estou deitado em minha cama, tentando explicar para os meus pais porque eu bebi tanto.

A falta de memória da noite anterior é compensada pelas memórias claríssimas que tenho da manhã seguinte. Assim que acordei e percebi o que tinha feito, eu queria sumir. Meus pais estavam já de pé, preparando o café da manhã na cozinha e eu podia ouvir o barulho de louças e talheres sendo manuseados, o barulho da água correndo, o barulho do chicote estalando…

Levantar da cama foi difícil. Conversar com meu pai, eu e ele sentados à mesa da sala foi muito difícil, mas nada foi mais dolorido do que ver a cara de decepcionada da minha mãe e dizendo: “eu sofri com o alcoolismo do seu avô durante anos. Não vou passar por isso de novo”.

Foi tudo o que precisei ouvir para nunca mais beber daquele jeito. Não vou tentar enganar ninguém dizendo que nunca mais fiquei tonto, mas nunca mais bebi vodka (boa ou ruim) e nem me permiti ficar tão maluco igual daquela vez. Porque eu não queria magoar a minha mãe, claro, mas também porque eu sei que nasci em uma família de alcoólatras e eu não me queria me tornar mais um problema para o grupo familiar. Toda família já tem problemas suficientes sem precisar de um babaca enchendo a cara e fudendo com o pouco de paz que podemos desfrutar em conjunto.

Eu sei que vivo em uma família onde o alcoolismo é uma constante porque me contaram. Porque já ouvi várias pessoas da família dizendo em diferentes ocasiões que precisam se controlar ou não parariam de beber nunca. Minha mãe é uma dessas. Ela ama qualquer coisa que tenha álcool na fórmula e, se não fosse uma pessoa muito inteligente e equilibrada, tenho certeza que seria uma bêbada de marca maior. Meus tios tornaram esse discurso, de que a família é alcoólatra, mais aberto à medida que seus filhos e sobrinhos foram crescendo, mas todos já sabemos desse traço há tempos. De alguma forma, eu deveria me considerar um tanto sortudo por tomar antidepressivo. É que desde que comecei a tomar remédio, há mais de dois anos, não bebo mais. Eu tentei! Mais de uma vez eu tentei beber mesmo sabendo que não era para beber muito. Descobri da pior maneira possível que cerveja (a bebida alcoólica de minha preferência) e meu remédio não se entendem…

Uma das recordações claras que tenho de festas de família é da minha tia Dalva, andando de um lado para o outro, sempre com um copo ou taça de qualquer coisa alcoólica na mão, conversando com meu pai ou com um dos irmãos dela sobre como ela “não se encaixava nesse esteriótipo familiar de alcoolismo”. E ela falava isso para um e tomava mais um copo. Falava a mesma coisa com outro e tomava mais outro copo. Tornava a repetir a mesma coisa para o um (“eu não sou alcoólatra como vocês dizem”) e mandava mais vinho ou run ou Bacardi ou licor ou cerveja ou Champanhe para goela abaixo.

Tenho infinitas recordações lindas da minha tia Dalva, mas lembrei disso hoje, quando fui ajudar minha mãe a encaixotar as coisas do apartamento dela. Dalva morreu no último dia 19 de abril e deixou para trás uma família enlutada, um apartamento cheio de vazio e muitas lembranças legais. Como ela nunca foi casada ou teve filhos, o apartamento e todas as coisas da Dalva ficaram para os meus avós, que mal sabiam o que fazer com a pensão que a filha deixou para eles e muito menos com o apartamento que, à partir de amanhã, estará de fato vazio.

Aos poucos, bem poucos, as coisas estão se ajeitando e os velhos estão tomando decisões. Eles querem construir uma casa nova, plana, perto da (futura) casa nova dos meus pais e querem vender o apartamento da Dalva. Decidiram que vão passar aquilo pra frente e não ficar se agarrando à algo que vai lembrá-los da filha que não está mais aqui. Antes de vender, fui convocado pela minha mãe para ajudar a desmontar o apartamento e encaixotar tudo. Foi isso o que fizemos hoje.

É aqui que explicar o que aconteceu fica difícil, porque é algo ao mesmo tempo esperado (até mesmo necessário), mas muito complicado de lidar.

Cheguei no apartamento da Dalva, dei um abraço em um tio que estava lá e fui ver a minha mãe, que parecia muito bem. Ela até me disse que estava aliviada e sentindo como se aquilo que estávamos fazendo era a atitude mais acertada. Fui direto para os quartos, sacos de lixo e supermercado nas mãos, para empacotar DVDs, fitas VHS, uma infinidade de livros, computador, enfim e tudo aquilo que compõe as posses de uma pessoa. Estávamos compartimentando todos os bens de uma mulher que viveu mais de sessenta anos! É algo complicado de se fazer, mesmo que essa pessoa não fosse da família.

Entre ir de um quarto a outro, procurando por mais sacolas e caixas de papelão, vi minha mãe encostada à porta do fundo, chorando como uma criança. Sua mão direita contra o rosto, como se quisesse esconder com um gesto qualquer os soluços e lágrimas que eram evidentes. Não acho que me lembro de ter visto minha mãe chorar assim em qualquer outro momento da minha vida e foi de cortar o coração. Eu a deixei chorar e tudo o que ela queria e saí de perto quando meu tio, irmão dela, se aproximou para confortá-la (ou talvez para chorar junto, não sei. Eu não fiquei para ver. Era um momento entre irmãos. Quem não é filho único sabe a força que existe até na troca de simples olhares entre irmãos e eu nada poderia fazer naquele momento). Fiquei e ajudei a fazer o que me pediram. Encaixotei, empacotei, carreguei, montei e desmontei, levei, trouxe, lacrei e etiquetei.

Faz pouco mais de duas horas que saí do apartamento da minha tia (que agora é o apartamento da minha avó) e voltei pra casa. Só agora consegui comer alguma coisa e relaxar um pouco para poder concatenar ideias e colocar uma palavra na frente da outra. Ainda não desenhei nada hoje, como eu deveria, nem criei porra nenhuma, mas isso é o de menos. De certa forma, é até melhor assim. Talvez eu ainda faça alguma coisa antes de dormir, mas não estou preocupado em produzir.

Hoje, com alcoolismo ou antidepressivos, o que cairia bem mesmo era um drink.

À sua saúde, Dalva!

Tim, tim.

Leandro

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