Os orfir

Por Glayson Ramos

Para o povo de Ilina, não havia o tempo. Sabiam que nasciam e morriam, que deviam dormir e acordar, procurar alimento e o conforto de conhecer a pele de seus iguais. Sabiam que o mais novo e o mais velho precisariam que a primeira e a última migalha fossem colocadas em suas bocas. Ilina era umas das mil palavras que esse povo usava para canto e também o nome que deram para a voz que surgiu quando a pequena Bevhi amadureceu.

Chamavam a si mesmos de orfirs, pois eram os ouvintes. Orfir também fora o grande patriarca que conduziu seu povo para o coração da mãe primeira, onde não havia mais inverno, nem trovões. Os mais jovens ouviam que Orfir havia tornado todos igualmente belos e ensinado o valor de cada palavra naquela terra sem ambição.

Ilina era a vigésima matriarca desde Eury, que quer dizer piedosa. Eury foi a filha que disse não a Orfir quando Rund nasceu. Orfir queria que Rund fosse entregue ao grande lago para que outros como ele não viessem. Orfir teve mais três filhos antes de fazer as pazes com Eury. Os mais velhos contam que Orfir sabia que seus ossos queriam se encontrar com os de Rund. Por isso, antes de ficar fraco demais disse que Eury seria a matriarca, pois só a mãe saberia ser justa os outros runds, que significava sem voz.

Eury decidiu que um rund cresceria com os orfirs até que pudesse arrancar sozinho um parcar para se sustentar. Mas este parcar não deveria se tornar alimento. O rund deveria usá-lo para alcançar o alto do último muro e pegar o caminho de volta para fora da mãe primeira. Nenhum rund voltaria a ser afogado no grande lago, mas ele teria que enfrentar novamente o terrível frio para sobreviver.

Ilina amou demais Amog e se desesperou quando percebeu que ele era um rund. Como matriarca, conhecia palavras que Orfir proibiu e que Eury decidiu que seriam o segredo dos runds, pois seriam o conforto dos exilados. Por isso, Ilina falava a Amog sobre essas coisas que não conhecia.

Ela dizia que ele deveria evitar os animais compridos como os parcar, pois tinham a morte nos lábios. Sem entender por que, ela dizia que Amog encontraria motogs muito maiores que os plantados pelos orfir e que haveria frutos nesses motogs. Ela explicou que no inverno uma grande bruxaria fazia com que a água virasse pedra, o chão ficasse fofo e o frio fosse terrível. Ela, que nunca conheceram o frio, disse a Amog que pele peluda de um animal faria o inverno doer menos.

Amog demorou parar arrancar o parcar, mas chegou o dia em que Ilina devia repetir as palavras que Orfir disse a Eury e foi assim que ela falou:

O pai Orfir disse para a mãe Eury que o sol era um pai maior. Os runds não devem temer o pai Sol, mas se assustarão quando ele invadir tudo. Os runds são filhos do pai Sol e a visão é o presente dele para os que não têm voz para viver dentro do coração da mãe terra. Eu que não vejo invejo as maravilhas que você vai ver e não poderá me contar”.

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