Pincéis

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A notícia se espalhou rápido. A princípio, ninguém queria acreditar (era muito horrível para ser verdade), mas as reportagens não paravam e era chegado o momento de aceitar: o Kolinsky estava extinto.

É de conhecimento universal que os melhores pincéis do mundo são feitos de pelo de kolinsky. São também os pincéis mais caros, mais apreciados e mais cobiçados. A comparação com pincéis de doninhas, de rabo de pônei ou de orelha de boi não chega a ser justa. O grande Emanuel de LaCoreza disse, pouco antes de sua morte, que o prazer de usar um kolinsky legítimo era maior do que aquele oferecido pelas mulheres. O fato de de LaCoreza ter sido uma bicha maluca que morreu asfixiado com o falo de um oriental particularmente bem dotado durante um jogo erótico em um quarto de hotel no Vietnã, não foi levado em conta e a citação pegou. Frases do tipo “troquei minha mulher de 40 anos por dois kolinsky série 20” se tornaram populares e, há quem diga que, se vivo, de LaCoreza deveria ser responsabilizado pela extinção dos kolinsky.

TVs de todas as aprtes procuraram os pintores de suas regiões para explicar o que essa extinção significaria para o mundo das artes. As respostas, é claro, variavam desde “o mundo está acabando” (frase mais comumente ouvida entre lágrimas e desespero e na França), até “não muda nada. Nós usamos lápis” (resposta padrão na Rússia).

Mas a verdade é que não importava o que qualquer pessoa dissesse. Todos sabiam que quem daria a palavra final sobre o assunto, quem deveria ser ouvido de fato, quem importava. Xistóvam Sabido (nome artístico)! O maior pintor vivo. O mais celebrado artista da humanidade. Talento raro, tanto quanto artista quanto como negociante. Suas obras estavam espalhadas pelo mundo, vendidas a preços de turmalina Paraíba. Ainda assim, a maior parte dos críticos também admirava seus trabalhos, celebrando Sábido como um exemplo de artista completo.

Sábido vendeu sua entrevista por uma quantia de sete dígitos. As negociações foram feitas através de um de seus agentes, já que não era de conhecimento geral onde o artista morava. Boatos diziam que ele tinha propriedades espalhadas pelo mundo todo, o que era verdade e só dificultava ainda mais a sua localização. No entanto, em uma manhã nublada de terça-feira, em um estúdio de TV em Nova York, Xistóvam falou a uma audiência estimada de alguns bilhões.

“A extinção do kolinsky significará o fim de uma era”, disse o artista em seu tom de voz grave e pausado. “Sim, no futuro, porque ainda acredito que poderemos encontrar kolinskys em algum canto do mundo, esquecidos da humanidade”.

E a confusão se instaurou.

É preciso entender que artistas são pessoas não muito sociáveis. São uma raça de gente que passa a maior parte de suas vidas em seus estúdios ou ateliês, criando (às vezes muito, às vezes nada), na maior parte do tempo, sozinhas. Para esse povo, uma convenção de pais e professores pode ser um desafio, uma festa pode ser a ideia que eles têm de purgatório e um show de estádio, desses que reúnem mais de 50 mil pessoas, é o próprio inferno.

Agora, partir em busca de criaturas extintas (ou que se acredita estarem extintas) é um desafio mesmo para profissionais, para aventureiros de carteirinha e para criptozoólogos. Não é difícil imagina então que, quando esses artistas de traquejo social zero, que mal sabem amarrar os próprios cadarços, foram em busca do “último kolinsky”, o que encontraram foi morte, desaparecimentos, loucura, insanidade, pânico e desespero.

Vários dos grandes artistas do mundo morreram em tentativas frustradas de encontrar um bicho que seria o derradeiro de sua espécie.

Logo, os quadros e obras desses artistas se valorizaram e foram vendidos por preços antes impossíveis. Mas as obras minguaram e não demorou para que todos (ou quase todos) os trabalhos dos “caçadores de kolinsky” (que é como a imprensa catalogava ou autores desses obras) saíssem do mercado. Quem as comprava raramente revendia. É claro que o mercado negro ainda estava funcionando a todo vapor, porque o mercado negro está sempre funcionando, mas o grosso da coisa deixou as casas de leilões e foi parar em museus ou na parede das casas dos ricos e famosos.

Quem ainda estava no mercado, produzindo o que os críticos chamavam de “o melhor trabalho em uma carreira que parecia não ter para onde evoluir”, era Xistóvam Sábido. Seus quadros atingiram preços estratosféricos e, ainda assim, os colecionadores, museus e galerias compravam o que podiam. Em um incidente particularmente interessante, dois possíveis compradores japoneses saíram no tapa durante um leilão em Londres, antes mesmo que o pano que cobria a obra tivesse sido levantado.

Às vezes, durante alguns períodos de falta de notícia, os jornais davam voz a organizações como a Sociedade Protetora dos Animais e a PETA, que acusavam artistas de estarem matando qualquer bicho (ou criança) que se parecesse com um kolinsky. Representantes indignados contavam trágicas histórias e apresentavam fotos e vídeos perturbadores de pilhas de animais mortos e sem pelos, esquecidos em alguma floresta ou escondidos em galpões clandestinos.

Quando esse tipo de reportagem começava a chegar às ruas, e o povo iniciava um burburinho a respeito de quem deveria ser o culpado por aquelas crueldades, notícias do avistamento de um kolinsky eram transmitidas ao redor do mundo e uma nova caçada recomeçava.

Enquanto isso, confortavelmente instalado em sua casa escondida, Xistóvam Sábido continuava pintando com seus pincéis kolinsky, feitos por ele e por sua mulher, ali mesmo, usando o pelos dos kolinskys que eles criavam no quintal dos fundos. Caso a necessidade se apresentasse, como tinha acontecido outras vezes, um dos animais de suas coleção era solto em algum lugar do mundo, e Sábido e sua mulher acompanhavam o noticiário para ver quantos de seus concorrentes tinham morrido, sumido ou ficado maluco.

E eles riam sozinhos, brindando em taças de cristal cheias de vinho do porto, o plano que elaboraram juntos e que dera certo.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Marcos Burian disse:

    Ô afinar de contas qual é o seu brogue oficiá? Ou ce posta em 478347689273498 locais virtuais ao mesmo tempo?

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