DIA DA TERRA

em

O primeiro dia da Terra, que aconteceu em 1970, teve um grande impacto na vida de Edmundo Costa-Gravas.

Edmundo era então um pré-adolescente que mal sabia o que era poluição, mas ver aquelas manifestações em prol do Planeta, através da tela da TV preto e branco que sua família mantinha na sala, mudou tudo. O garoto desenvolveu uma sede de conhecimento que transformou seu jeito de agir e de pensar.

Seus pais não sabiam qual era a extensão dessas mudanças àquela época. Eles apenas sorriam e aprovavam o boletim do filho que começou a vir com notas escritas em caneta azul, ao invés do tradicional vermelho. Aprenderam a usar menos água, diminuíram o valor da conta de luz e isso também lhes fazia sorrir. Edmundo sorria dobrado, vendo que seus esforços faziam os pais ainda mais orgulhosos dele.

Edmundo se destacou em ciências e, mais tarde, em biologia e física (matéria que ele descrevia como “uma tentativa desesperada do ser humano de entender o que acontece à sua volta”). As ótimas notas e trabalhos brilhantes lhe garantiram bolsas de estudos em várias universidades. Ele escolheu aquela que, segundo seus critérios, emitia a menor quantidade de carbono na atmosfera.

O ambiente universitário só estimulou as crenças de Edmundo. Ele encontrou iguais entre outros alunos do campus e ajudou a fundar uma ONG que promovia palestras e seminários a respeito de energia renovável e sustentabilidade.

As reuniões da ONG não eram lotadas. Estavam então vivendo o final dos anos 70, o que significa que a maioria dos alunos estava atrás de drogas ou de sexo ou de ambos. Os entusiastas do rock progressivo babavam sobre o novo solo de Dave Gilmore e os primeiros punks gastavam seu tempo imaginando como eles poderiam quebrar os dedos de Gilmore com gritos acompanhados de guitarras distorcidas em doses de dois minutos por vez. Em meio a tudo isso, falar sobre meio-ambiente era como tentar fazer com que um hippie tomasse banho.

“Não desista do que você acha que é importante, meu filho”, dizia o seu pai quando Edmundo ligava tarde da noite, cabisbaixo pela falta de impacto que suas ações estavam surtindo sobre o corpo de alunos. “Saiba que nós estamos muito orgulhosos de você, filho”, dizia a sua mãe, entrando na conversa através da extensão do telefone, o que sempre assustava pai e filho.

Edmundo percebeu que as coisas poderiam mudar enquanto andava de bicicleta.

Em 1979, Edmundo ia do alojamento para o prédio da universidade de bicicleta. Era um exercício físico, ele ajudava a desafogar o sempre lotado ônibus que fazia esse trajeto, e bicicletas não queimam combustíveis fósseis ou liberam carbono. Foi em uma dessas idas e vindas que Edmundo viu um cata-vento montado no final de uma barra de ferro que girava sozinha. O cata-vento era feito de partes de uma lata cortada e ajustada naquele peculiar formato que lembrava o de uma rosa achatada. A hélice e a barra de ferro que compunham o cata-vento estavam montados perpendicularmente a um alto e fino poste de cobre. Enquanto a roseta girava a barra de ferro se movia de um lado para o outro sobre o poste de cobre.

“Esse sou eu”, pensou Edmundo. “Indo pra lá e pra cá, sem rumo, sem norte, só um instrumento que vive em função do vento”.

Lembrou-se de Dom Quixote, de moinhos, da força das coisas tidas como inúteis. Ao olhar para baixo, viu suas pernas subindo e descendo enquanto tocavam os pedais da bicicleta. Transformar aquele movimento em energia não seria exatamente um esforço.

Edmundo comprou uma bicicleta ergométrica e a ligou a uma bateria que armazenava energia. Suas pedaladas matinais, além de lhe garantirem uma boa condição aeróbica, alimentavam a bateria e Edmundo então convertia a energia armazenada em energia elétrica para alimentar algum eletrodoméstico da casa, geralmente o liquidificador.

Essa foi a primeira ação de Edmundo que chamou a atenção de alunos de fora do seu círculo imediato de convivência. Além de álcool e sexo, a outra coisa que todo estudante procura é um jeito de economizar dinheiro. Uma vez que a ideia da bateria na bicicleta funcionou, Edmundo tratou de desenvolver novos projetos. Alguns fizeram mais sucesso do que outros, mas todos foram adotados em vários lugares, por várias pessoas.

Nessa época Edmundo já era procurado por jornais locais e regionais para falar sobre suas invenções. Ele concedia as entrevistas, mas sempre saía dessas se sentindo um pouco amargurado. Ninguém queria saber dos porquês dos inventos, mas todos perguntavam se ele tinha ideia da quantidade de dinheiro que poderia receber caso resolvesse vender suas patentes. Sim, ele tinha ideia do tanto de dinheiro que poderia receber, mas estava perfeitamente feliz com o salário de professor. Ele fora convidado pela universidade para permanecer no campus, dando aulas de meio-ambiente para novos alunos e isso o realizava. Mas essa não era a resposta que a mídia procurava, é claro. Ainda mais a mídia local de uma cidade pequena. Eles viam em Edmundo Costa-Gavas a possibilidade de anunciar para o mundo o nascimento de um novo milionário, não de mais um professor.

Aquilo enfureceu Edmundo, fazendo com que ele prometesse por Nossa Senhora da Abadia, sua protetora, que não venderia nenhuma de suas patentes. Ele ensinaria, através da ONG, e de graça, como construir os aparelhos que desenvolveu, indicaria fornecedores e daria assistência técnica caso fosse necessário. “Mantenha a cabeça erguida, filho”, disse seu pai quando ele lhe contou dessa decisão. A mãe concordou, de seu jeito sem rodeios que, naquela altura, já fazia Edmundo rir ao invés de lhe deixar assustado ou com raiva.

Apesar do apoio dos pais, foi uma decisão que afastou os noticiários. As matérias sobre Edmundo diminuíram ao ponto de ele só ser lembrado uma vez por ano, no dia da Terra, quando era chamado por alguma rede de TV, de rádio, ou procurado por algum jornal para falar sobre poluição, meio-ambiente e alternativas de energia.

Todos os anos, após essas entrevistas, mais pessoas e empresas pareciam se lembrar que ele existia e novas propostas recheadas de zeros lhe eram feitas. Foi durante uma dessas reuniões com novos possíveis compradores que Edmundo recebeu a notícia de que sua mãe estava muito doente e tinha sido levada para o hospital às pressas.

Ela morreu menos de duas semanas depois. Seu pai foi pouco mais tarde, deixando Edmundo sem aqueles que mais lhe importavam.

Ele vendeu a primeira de suas patentes um ano após a morte do pai. Três anos depois ele já tinha vendido todas. E sim, aquilo lhe rendera um bom dinheiro. Edmundo usou parte da verba para comprar e montar um barco-escola. Passou o resto dos seus dias viajando ao redor do Planeta que lutou tanto para preservar, ensinando crianças de várias partes do mundo tudo o que ele sabia.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s