Foi um rio que passou

I

Reynnaldo Sant’ana não amava Aliclere Batista tanto assim, pelo menos não no começo. Eles se conheceram por acaso, na saída da faculdade, em uma quinta-feira qualquer de um mês de outubro qualquer de um ano qualquer. Parecia, para Reynnaldo, algo muito pouco planejado, muito improvável, muito parecido com um acidente da vida real, o que era difícil de aceitar para um cara que gostava de racionalizar tudo.

A racionalização foi embora no final de semana seguinte, quando Aliclere foi ter com ele e os dois se beijaram e Reynnaldo se viu apaixonado mesmo sem querer. Era um sábado desses normais, onde a única coisa que acontece digna de nota é o fato de encontrarmos o amor da nossa vida.

Começaram a namorar algumas semanas depois e foram para cama pela primeira vez durante o reveillon. Reynnaldo dizia que queria fazer “sexo da virada”, de forma que ambos gozassem juntos ao final da contagem regressiva para o ano novo. Nos sete anos que ficaram juntos eles tentaram essa proeza todo dia 31 de dezembro, mas nunca conseguiram.

Era uma das poucas coisas que não conseguiram fazer juntos, e olha que suas vidas foram agitadas desde o começo. Aliclere conseguiu um emprego em outra cidade e teve que se mudar. Reynnaldo segurou a onda e proveu o que ele chamava de “base emocional” que ela precisava para seguir em frente. Logo, logo, esse emprego de Aliclere a rendeu outro, em outra cidade e depois outro, em outra cidade ainda. Nos sete anos de namoro ela morou em cinco cidades diferentes.

Você nunca se cansa de ficar correndo atrás da sua mulher assim?“, as pessoas às vezes perguntavam.

Eu não estou correndo atrás de nada“, ele respondia. “Ela está indo em busca dos seus sonhos e eu dou todo o apoio que posso.”

No fundo, Reynnaldo gostaria era de fazer mais. Ele queria era ter dinheiro para sustentar os dois, para que ela não precisasse ficar pulando de lugar para lugar e pudesse escolher uma cidade onde ambos seriam felizes, tranquilos e pudessem criar os futuros filhos sem grandes preocupações. Mas ele trabalhava numa maldita fábrica de fazer doido, também conhecido como “mercado de ações”, e ainda não tinha chegado a sua hora de ser um famoso dono de banco, desses que abrem suas coberturas para a revista Caras e pagam mal seus funcionários.

Aquela inabilidade de prover para sua “família” o matava aos poucos. Todas as vezes que Reynnaldo ia visitar Aliclere ele tinha que fazer as contas do seu dinheiro, calcular o quanto ficaria devendo de cheque especial e como o rombo poderia ser sanado quando ele voltasse. Era uma dificuldade mínima, pensava ele, em vista de poder passar o tempo que conseguisse ao lado da sua mulher.

Ela sorria para ele quando se encontravam, ele sorria de volta. Depois o beijo, o abraço apertado, o cheiro dos seus corpos, o sexo, a conversa de travesseiro, o sono dos apaixonados. Ah, sim… valia todos os dinheiros aquilo. Valia qualquer coisa!

Quando Aliclere disse para Reynnaldo que o namoro tinha terminado e que ela não queria mais saber dele, Reynnaldo já a amava profundamente. Talvez nunca tivesse amado tanto assim na vida, mas da mesma forma rápida com que ela foi se encontrar com ele num sábado qualquer, ela o dispensou numa terça-feira comum. Encontraram-se naquele final de semana para ela dizer que era mesmo o fim.

Reynnaldo voltou pra casa, um tanto incapaz de entender o que tinha acontecido, e passou um ano dentro do seu quarto. Ali ele montara um pequeno escritório composto de uma bancada, computador, televisão e mesa de reunião. Saía para comer, para encontrar algum cliente, raramente para ver algum amigo e mais raramente ainda para se divertir. Parou de beber, voltou a fumar, se desfez das fotos e cartas com juras de amor eterno que Aliclere lhe dera, se apequenou e esperou que a depressão o levasse numa noite qualquer, tão qualquer quanto aqueles dias nos quais ele e Aliclere tinham se encontrado. Dias que, agora ele via, não foram tão quaisquer assim.

II

Mas Deus ou o poder divino ou o espírito santo ou o destino ou seja o que for não deixou que a vida de Reynnaldo Sant’ana terminasse assim. A depressão de fato se assentou, no entanto. Ele ficou fisicamente muito doente e teve que voltar a morar com seus pais, onde esperava conseguir suporte e remédios para melhorar.

Os dias na casa dos pais eram melhores do que os dias passados no seu quarto, mas ainda eram sofridos e pouco proveitosos. E, ele sabia, eram dias longe de Aliclere, agora uma bem sucedida gerente de uma grande empresa, que vivia longe dele em todos os sentidos.

Era muito difícil para Reynnaldo aceitar aquela distância. Sete anos juntos não deveriam acabar de um dia para outro, como ele achava que tinha sido. Talvez Aliclere tivesse inúmeras razões, talvez ele tivesse feito algo — na visão dela — terrível, talvez existisse uma outra pessoa na vida dela, mas, para Reynnaldo, o namoro tinha acabado de repente e isso doía demais.

Por isso Reynnaldo se animou e se encantou com a possibilidade de esclarecimento quando descobriu que Aliclere estava na cidade ao mesmo tempo em que ele. Era a chance de colocar as coisas às claras, de entender o que tinha acontecido e de, se Deus quisesse, seguir em frente na vida.

Mas seus amigos e amigas foram enfáticos:

Você não tem nada que ligar pra ela, cara. Se ela quiser, que ela ligue pra você“.

Já passou tanto tempo, esquece e vamos sair pra beber e comer outras“.

Porque você ainda pensa nessa menina que te largou, meu bem, sendo que eu estou aqui?

E assim por diante.

Mas Reynnaldo queria conversar com ela, porra. Ele queria sentar e bater-papo e saber como ela estava. Ele queria vê-la de novo, de frente, olhar nos seus olhos e enxergar o que estivesse ali. Fosse o que fosse. Ele queria saber.

Reynnaldo passou a mão no telefone, ligou para ela e disse:

Quero te ver de novo, de frente, olhar nos seus olhos e enxergar o que estiver aí. Seja o que for. Eu quero saber“.

Aliclere demorou para responder, dando a entender que estava escolhendo as palavras com cuidado.

Não quero“, ela disse por fim. “Não tem mais nada a ver nós nos encontrarmos. Prefiro ficar longe como estamos. É mais fácil assim. Talvez um dia desses, mas agora não“.

Tudo bem“, respondeu Reynnaldo. “Eu te entendo e te respeito. Um dia desses, quem sabe…

Um dia desses“.

Tchau, boa noite“.

Tchau“.

Reynnaldo Sant’anna e Aliclere Batista nunca mais se falaram. Ele soube, pelo tom de voz daquele telefonema, que ela ainda o amava, mas que não queria mais ficar com ele. Ele já sabia que a amava, mas não poderia mais ficar com ela. Ambos eventualmente encontraram a paz em seus corações e seguiram seus caminhos.

Reynnaldo voltou para a escola e se tornou professor, casou-se com Nayara Arias com quem teve uma filha chamada Sara. Aliclere deixou a gerência da empresa onde trabalhava e abriu seu próprio negócio. Ela foi casada e divorciada duas vezes e teve um filho do segundo casamento. O menino se  chama Igor e a mãe de Aliclere a ajuda a criá-lo.

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