O que se diz com música

Antigamente eu gravava mixtapes. Era mais pra mim mesmo e pro meu pai. A gente as colocava no toca-fitas do carro e ia viajar ouvindo músicas comprimidas em dois lados de 30 minutos cada. E era ótimo! Depois de um tempo, descobri que compô-las era ótimo também para impressionar as meninas. Oh, descoberta linda! Várias e várias dessas gravadas com carinho e entregues em pacotes personalizados, com uns pequenos desenhos ou uma colagem para fazer o filme…

O tempo passou, vieram os CDs, mas a palavra mixtape continua. Ou pelo menos eu acho que continua. Nunca ouvi ninguém falando que está gravando ou vai gravar um mixcd… Não tem a mesma potência. E aportuguesar, “fita de misturas”, não soa bem. Aí que nos mantemos atados ao mixtape. E eu, preso a essa ideia de que fazer uma graça pra moça passa pela brincadeira de lhe gravar um CD de coletânea de músicas.

E agora?

Agora eu tenho que descobrir do que ela gosta. Sei de alguma coisa aqui e ali, uns blues e outros jazz, mas nada muito específico e sem especificidades fica complicado acertar. Pior: fica muito fácil errar! Errar numa mixtape é mortal. Hoje em dia, com o CD, é só passar a música pra frente (MUITO melhor), mas, como eu falei, sou da época do K7. Errar significava ter que tirar a fita e avançá-la usando uma caneta BIC para não gastar a pilha toda do walkman, ou tocar pra frente no som e perder alguns minutos — ao invés de perder 4 minutos — com uma canção horrível. Mas o tempo não é o problema, é a narrativa. Uma compilação perfeita conta uma história e diz o que você quer com a menina que a recebe. Perder uma música é perder um capítulo da história que você está contando.

E a história que você quer contar, convenhamos, é um problema em si. Qual sua intenção? Quer pedir desculpa por uma cagada? Quer dizer que está gostando dela ou que não está? Talvez você queria apenas dizer que se lembrou dela, ou, o pior, informá-la de que você nunca a esqueceu (espero que não seja esse o seu caso. Se for, sinto muito, mas você está fudido.); talvez seja apenas uma mixtape de parabéns por alguma conquista importante, ou de aniversário… Enfim, mil histórias em um CD de músicas cheias de histórias em si. O segredo é combinar as músicas certas com a mensagem certa com a hora certa de presentear. Muito complicado. Muito divertido!

Até agora, minha mixtape tem Ella Fitzgerald e Billie Holliday e Thelonious Monk. O que é legal, mas está muito intensa. Precisa de um dedo de brincadeira, de alguma coisa menos séria, tipo… Tony Bennett & Faith Hill cantando The Way You Look Tonight! É uma boa para adentrar terreno menos sisudo. Sinatra na sequência nos manda para a lua, depois Sam Cooke, e aí uma bola curva: Emmylou Harris, Gillian Welch e Alison Krauss cantando Go to sleep little baby, da trilha sonora de “E aí, meu irmão, cadê você?”. Continuamos em trilha sonora e ainda nesse espaço meio indefinido entre música pop e indie com The Moldy Peaches cantando Anyone Else But You… daí pra frente, não sei. Talvez Clint e Jamie Cullum em Gran Torino, o que me levaria a Ray LaMontagne e David Gray e Loudon Wainwright III. Uma vez em território folk, todo um universo se abre, o que é ótimo porque descobrir o que cabe numa mixtape é a maior parte da diversão.

Então vou descobrindo. Incluindo e retirando. Sem pressa.

Um dia eu termino, talvez.

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