Até mais e obrigado pelos serviços prestados

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Tive um blog, chamado Saca-trapo (pontos extras para você que sabe o que é um saca-trapo), com um amigo durante algum tempo. O texto abaixo foi publicado pela primeira vez em meados do ano passado no Saca-Trapo. Como ando precisando mesmo de conciliar com ideias esperançosas, foi legal reecontrar esse texto. Espero que você gostem:

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O ônibus espacial Atlantis pousou no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, na madrugada de hoje, dia 21 de julho de 2011. Foi o final de uma missão de 13 dias, que levou suprimentos suficientes para um ano à Estação Espacial Internacional (EEI). Mais importante: o pouso da Atlantis marca o fim da era do ônibus espacial. Dos cinco que foram construídos, dois explodiram – matando 14 astronautas – e três vão virar peças de museu em diferentes localidades dos Estados Unidos. As próximas missões espaciais tripuladas partirão da Rússia, atualmente o único país capaz de levar seres humanos ao espaço com alguma segurança. A China continua a desenvolver seu programa espacial, mas ainda deve demorar anos até que os chineses consigam de fato mandar alguém para o espaço e mais ainda para desenvolverem um veículo que consiga se acoplar à EEI, porque não é possível atirar um foguete na Estação, é preciso manobrar até ela, algo que o ônibus espacial conseguia fazer.

A verdade é que o ônibus conseguia fazer pouco mais do que manobrar no espaço. Ele nunca foi uma nave de fato e, agora que chegou ao fim, várias pessoas correm para demonstrar como sua própria criação foi um erro que custou muito mais do que deveria, não fez a quantidade de voos prometida e marcou uma era de mais fracassos (principalmente devido às explosões da Challenger e da Columbia) do que de sucessos. Verdade que alguns lembram dos infinitos progressos tecnológicos que foram desenvolvidos graças ao ônibus espacial, de isolamento térmico à bombeamento de combustível, mas, de novo, são rápidos em lembrar que vários desses não foram programados e aconteceram como “acidentes felizes” de um programa fadado ao fracasso desde sua estreia, em abril de 1981, quando o Columbia voou pela primeira vez.

O que as pessoas parecem não entender é que o ônibus significava mais do que o que ele era.

Essas “naves” eram de fato pouco mais do que tijolos atirados aos céus e que depois caíam como blocos de concreto quase manobráveis de volta para a Terra, mas eles mostravam para o mundo que o ser humano conseguiria eventualmente ir mais longe do que jamais tinha ido antes. O ônibus enviava pessoas ao espaço e as trazia de volta! Foi criado, oficialmente, para isso, para ser um veículo reutilizável. E foi. E custou bilhões de dólares a mais do que deveria, nunca foi à lua, nunca foi a lugares inéditos no espaço, mas significava que a humanidade tinha, ainda que capenga, sua própria nave espacial. O ônibus era um sonho de ficção-científica que se tornou realidade, como também o fizeram os telefones celulares e os computadores que reconhecem comandos vocais – avanços, diga-se de passagem, diretamente ligados às tecnologias desenvolvidas para programas espaciais. Assim, o ônibus nos dizia que podíamos sonhar com um futuro onde outras promessas de ficção-científica seriam possíveis, como a erradicação de doenças, o fim da fome, das desigualdades sociais e das brigas mesquinhas por poder. Através da representatividade do ônibus, víamos um sinal de onde poderíamos chegar, como uma única raça, como pessoas que sonham unidas em função de um lugar melhor. A cada lançamento, os astronautas da vez eram nossos avatares num mundo além do nosso alcance e, ao mesmo tempo, maravilhosamente, um mundo do amanhã, de alguma forma, alcançável.

Com o fim da era do programa espacial, terminam também partes dessas esperanças e da possibilidade de conquistas semelhantes àquelas que conseguimos nos trinta anos de viagens espaciais que os ônibus fizeram. Continuaremos a ir ao espaço, sem dúvida, mas estamos de volta onde começamos, quando o que conseguíamos fazer era pouco mais do que mandar (e não trazer de volta) um cachorro para a órbita terrestre. É triste saber que não veremos outro empreendimento desse porte pelos próximos dez ou, quem sabe, trinta anos. A não ser que aconteça alguma revolução imprevisível (outra guerra, talvez), a viagem tripulada para o espaço como a minha geração a conheceu está encerrada. Essa minha geração, que nasceu quando os sonhos revolucionários dos anos 60 e 70 já tinham feito água e que aprendeu a ser devidamente cínica em relação ao futuro, tinha no ônibus um dos únicos símbolos de que ainda era possível ambicionar  um mundo melhor. (Por mais ingênuo que pareça, a ideia de “ambição de construir um mundo melhor” produziu boa parte da arte de 60 e 70. A mesma que hoje muitas pessoas tentam resgatar e prezam como “a melhor arte produzida no século XX”). No entanto, minha geração abandonou essa ideia, deu à década na qual nasci o apelido de “década morta” e se esqueceu do poder que coisas etéreas e ideias podem ter. De quão forte são essas pequenas delicadezas da humanidade.

Exceto pela viagem espacial.

O ônibus era nosso Nautilus, nossa expansão marítima, nossa chance de imaginar nossos pés tocando terras distantes como nos contos de Edgar Rice Burroughs ou de Alex Raymond. Ir ao espaço nos permitia chegar mais próximo do ideário desses escritores, ser um pouco John Carter ou Flash Gordon ou Bucky Rogers e, você sabe, sonhar.

O fim da era do ônibus espacial põe um ponto final, ao menos para a minha geração, na representatividade do amanhã metafórico da ficção, nos deixa um pouco mais pobres, um pouco mais tristes e, infelizmente, um pouco menos ingênuos.

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