E agora, Marvel?

Em setembro do ano passado, em uma bela jogada de marketing, a DC Comics recomeçou toda sua linha de super-heróis do zero. Com exceção de alguns títulos específicos (principalmente aqueles ligados ao Lanterna Verde), a editora decidiu que era chegada a hora de virar a mesa e fazer algo radical.

Ou quase.

Um das características que marca a DC é sua mania de recomeço, de Crises dentro de suas revistas de super-heróis e de pretensos recomeços. Ainda assim, a iniciativa conhecida como New 52 foi um sucesso. Cinquenta e dois novos títulos, todos com um belo número 1 na capa, foram lançados e a editora conseguiu, por algum tempo, vencer a Marvel na disputa de vendas de revistas mensais.

E agora a Marvel decidiu contra atacar.

Marvel NOW

Começa em outubro deste ano  a chamada Marvel NOW, reformulação de parte da linha de super-heróis da editora. As mudanças começaram há algum tempo, com a Marvel anunciando a troca de equipes criativas em diferentes títulos. Brian Michael Bendis, escritor que cuida dos Vingadores há dez anos, vai para os X-Men e Jonathan Hickamn, que estava no Quarteto Fantástico, vai para os Vingadores, por exemplo. Algumas revistas também ganharão novas edições #1 e todas as que fizerem parte do evento Marvel NOW recomeçarão com histórias chamadas por lá de “new reader friendly”, que significa que novos leitores poderão pegar essas revistas #1 e lê-las sem se preocupar com as toneladas de coisas que aconteceram antes.

Marvel e DC acumulam, cada uma, mais de 70 anos de histórias contínuas. É difícil existir na história da humanidade espaços de histórias tão regulares e continuadas em qualquer área do entretenimento. Nem as guerras mundiais conseguiram acabar com a produção de histórias em quadrinhos e nem a ideia de uma crescente estupidez coletiva da espécie que nos é constantemente propagandeada fez com que as HQs sumissem do mapa. Se, por um lado, esse fato é louvável e deve ser reverenciado, por outro, estamos falando de, somados, mais de 140 anos de histórias. O que torna a criação desses pontos de mudança essenciais.

(Aqui começa uma grande divagação metafórica sobre quadrinhos de super-heróis. Entre por sua conta e risco).

Vejo as revistas mensais de super-heróis lançadas pelas “duas grandes” (Marvel e DC), como um cruzeiro infinito. Por mais divertido que um cruzeiro possa ser, de vez em quando é necessário que o barco pare em algum porto. Alguns passageiros, achando que aquela viagem não leva a lugar nenhum, descem, outros, ansiosos para ver onde serão levados, sobem a bordo, e logo a viagem é retomada. Os que descem, saem reclamando que a viagem era muito mais legal quando eles a começaram. Esses não viajarão mais, no entanto. Contentam-se em comprar livros de fotografias que os farão se lembrar dos tempos que começaram a viagem e raramente se importarão com o que acontece do momento que desembarcaram para frente.

Os que sobem, geralmente, vão em silêncio, querendo saber mais sobre todas as atrações que divertiram tantos passageiros por tanto tempo. Alguns podem ficar durante anos e anos, enquanto outros descerão na primeira oportunidade que tiverem.

Avengers posterAinda para manter-se dentro dessa alegoria metafórica (se você me permite), os sucessos cinematográficos recentes baseados em quadrinhos seriam como helicópteros gigantescos que pousam sobre o navio enquanto esse está navegando. Mas os passageiros do helicóptero só podem ver uma pequena parte das atrações e nenhum dos administradores do cruzeiro fazem a menor questão de transformar o barco em algo mais aprazível para esses passageiros. Eles são, para todos os efeitos, passageiros temporários. Se quiserem embarcar de verdade, terão que esperar até o próximo porto.

(Aqui termina a divagação metafórica. Obrigado!)

Axel Alonso e Tom Brevoort, editores da Marvel, disseram que Marvel NOW acontece agora por ser este um ponto natural para as mudanças nas histórias. Isso é uma mentira. Acontece agora porque a DC estava chutando a bunda da Marvel em vendas e a Marvel não quer ficar para trás. A mesma coisa com Vingadores contra os X-Men, evento que atualmente acontece nas revistas das duas equipes (e em várias outras, mas não vamos entrar nestes méritos agora, por favor). A desculpa foi: era uma briga que estava prestes a acontecer e este foi o momento perfeito para tal. Não, não foi. Este foi o momento ideal para voltar a ser a editora que mais vende revistas na América do Norte e Vingadores contra X-Men era o jeito mais rápido de fazer isso.

Não que vender revistas esteja errado. Por favor, não pense assim. Como diz o Sidney Gusman, editora não é instituição de caridade. Todas querem é fazer dinheiro mesmo. Lembremos que os quadrinhos no ocidente nasceram como atrações nos jornais para semiletrados entenderem as notícias. ou seja, sempre foram uma ferramenta de vendas.

O que me incomoda, e o que me fez escrever isso tudo, é a hipocrisia da tentativa de justificar esses eventos como lógicos e dispositivos “para se contar boas histórias”. Para com isso! Na verdade, este texto não é sobre quadrinhos ou sobre super-heróis, mas sobre a tentativa de enganar as pessoas. Aquela agenda midiática que insiste em mostrar a humanidade como um bando de pessoas cada vez mais burras, é comprada como verdade por corporações e vendida para o público como histórias da carochinha. Mitt Romney, candidato a presidências dos Estados Unidos, disse recentemente que “corporações são pessoas”. O que é mentira. É claro que é mentira. Assim como é mentira que a legalização do casamento gay é o primeiro passo para a legalização do bestialismo e do casamento interespécies — ambos também argumentos de Romney e da direita ultraconservadora dos Estados Unidos.

Procuro não compactuar com essa ideia de que “na minha época  as coisas eram melhores”. Talvez tenham sido sempre assim e só agora percebo como as duas grandes operam, mas não consigo me distanciar do fato de terem sidos os quadrinhos (e, sim, quadrinhos de super-heróis também, e muito), uma das formas de resistência mais explícita ao pensamento medíocre da humanidade. Os X-Men são a incorporação da alegoria da aceitação do desviante. A Mulher-Maravilha só existe se associada ao feminismo e à luta pela igualdade das mulheres. O Hulk é a dualidade inerente ao ser humano e Super-Homem é, em sua melhor forma, um comentário a respeito de como todos podemos ser supers e ninguém é capaz de nos dizer o contrário. Quadrinhos como mensagens fortes e poderosas, esperançosas, capazes de nos fazer pensar acima das nuvens do comum onde estamos sempre inseridos. Logo, ver aqueles que controlam as maiores corporações responsáveis pelos quadrinhos mais vendidos no ocidente se renderem ao discurso pasteurizado corporativo, é triste e é o tipo da coisa que faz pensar em abandonar o barco imediatamente.

Os quadrinhos foram, por muitas e muitas décadas, o lugar do diferente, do absurdo, do contestador. Tudo bem que não somos mais tão diferentes assim. Quando pop stars como Britney Spears, Christina Aguilera  e Pink usam do arcabouço de imagens de super-heróis em seus clipes e shows, é porque fomos completamente aceitos no mundo pop. Big Bang Theory, reportagem no Fantástico, espaço dedicado em feiras de literatura, enfim… nós vencemos. E talvez seja muita ingenuidade minha pensar que essa “vitória” não significaria também entrar para a ala “do mal” das corporações. Ou seja, que se tornar parte da cultura pop massiva não seria uma oportunidade para entrar no grande esquema da mentira e do tratar o próprio público como acéfalo.

Quadrinhos nos ensinaram a pensar criticamente e agora os responsáveis pelos quadrinhos querem que sejamos todos acríticos?

AvXs
AvXs

Eu esperava mais, senhores. É só isso. Eu esperava mais.

2 comentários Adicione o seu

  1. Eu discordo que quadrinhos de heróis ensinam a pensar criticamente. Já viu as matérias do Omelete que falam do casamento gay nos X-Men? Os comentários são uma festa de homofobia, o que me leva a crer que esses meninos que lêem X-Men não entendem o que estão lendo.

    1. Leandro Damasceno disse:

      pois é, os meninos não entendem o que estão lendo. porque os próprios x-men em si podem ser entendidos como uma grande metáfora sobre ser gay. o diferente que os outros não aceitam. a questão está posta nos quadrinhos de super-heróis, no caso, nos x-men. a questão da aceitação está lá, em cada história. pra mim, não se pode dizer que esses quadrinhos não podem ser usados como ferramentas de pensamento crítico porque quem os lêem são imbecis. a crítica está lá. uma pena que os leitores não estejam entendendo. mas isso é assunto para outro momento.

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