Entretenimento de guerrilha

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Edward Burns é um dos meus cineastas prediletos. É ele nessa foto aí.

Burns talvez seja mais conhecido como ator, uma vez que já atuou com Robert DeNiro (15 Minutos), foi dirigido por Spielberg em O Resgate do Soldado Ryan, está no elenco de À Beira do Abismo, lançado este ano, entre outros.

Mas o que me chamou a atenção para Burns no início foi o segundo filme que ele atuou e dirigiu: Nosso tipo de mulher (She’s the one, no original). Pouco tempo depois, consegui assistir o primeiro filme dele, Os irmãos McMullen. Na minha cabeça, e seguindo a tradição de Woody Allen (uma influência que, mesmo que ele não admitisse, é óbvia em todo seu trabalho), Burns fazia cinema como um cantor e compositor folk faz música, produzindo pequenas pérolas da sua arte que serão redescobertas eternamente, por diferentes gerações.

Mas, após Nosso tipo de Mulher, o seu sucesso foi diminuindo. Filmes como Paixões em Nova York e Looking for Kitty não deram o mesmo retorno esperado tanto por Burns quanto para aqueles que investiram em seus filmes e a suas produções foram se tornando cada vez mais duvidosas. Noivo em fuga fez algum sucesso e Purple Violets é criticamente bem aceito, mas nada que se compare aos números de McMullen ou de Nosso tipo…

E aí chegamos em 2010.

Sabendo que era necessário tomar uma nova atitude em relação ao seu trabalho de cineasta, Burns decidiu retornar às raízes independentes e começou a fazer uma espécie de “cinema de guerrilha”. Com um script mais ou menos pronto, equipe de produção composta de três pessoas (incluindo ele mesmo) e atores sem nome algum, Burns filmou Nice Guy Johnny, um filme que custou 9 mil dólares.

Vamos pensar um pouco.

Nove mil dólares para colocar o filme na lata, como eles dizem por lá. Obviamente, não existiram latas aqui, uma vez que tudo foi filmado com câmera digital. Câmera! No singular. O filme inteiro foi captado com uma câmera.

Com os custos de pós-produção contabilizados, Nice Guy Johnny saiu por, no total, 109 mil dólares. Aqui está o trailer, veja se parece que esse filme foi feito sem dinheiro nenhum:

Nice guy Johnny

Burns explica: equipamento próprio, cada ator e atriz cuida do seus próprios cabelo e maquiagem, usa suas próprias roupas, todo mundo contribui com o roteiro, sempre usando a luz disponível no lugar, locações públicas ou em casas/restaurantes/apartamentos de amigos, música e pôsteres feitos por fãs chamados a contribuir via twitter etc. Os nove mil foram gastos com 2 mil de seguro, 5 mil para o salário dos atores e outros 2 mil de alimentação. Demoraram 12 dias para fazer o filme inteiro e o lançamento aconteceu em video on demand e pelo iTunes.

Os irmãos McMullen faz parte de uma época interessante para o cinema independente norte-americano. São dos mesmos anos 90 produções como Clerks, de Kevin Smith; Um dia em Nova York (The Daytrippers), de Greg Mottola, diretor dos mais recentes Superbad, Adventureland e Paul e Brincando de seduzir (Beautiful Girls), de Ted Demme, entre vários outros.

O modelo de negócios que permitiu que esses filmes fossem realizados não existe mais. O mercado mudou muito dos anos 90 pra cá e alguns dos diretores que fizeram muito sucesso na última década do século passado não conseguiram seguir com suas carreiras na primeira década deste século. Demorou um pouco, mas o próprio Burns admite que um dos motivos de ele ter “perdido a mão”, de certa forma, se deve ao fato de ele não ter entendido como as coisas mudaram. Ele explica que muito da existência de Nice Guy Johnny se deve ao fato dele querer voltar às suas origens. O que pode ser verdade em respeito ao espírito da coisa, mas pouco existe na produção do filme que remete a Os irmãos McMullen. Da parte técnica — de captação de sons e imagens — até a parte de pós-produção e distribuição, é tudo muito diferente. Os tempos são outros e o cineasta Edward Burns também. Kevin Smith, talvez o outro grande nome dessa pequena lista de cineastas independentes dos anos 90 no que diz respeito a continuar a fazer a sua própria filmografia autoral, faz uma analogia com o Hockey, evocando Wayne Gretsky, o maior nome desse esporte de todos os tempos. Segundo Smith, o pai de Wayne Gretsky disse ao filho certa vez que o segredo do jogo não era ir aonde o disco estava, mas ir para onde o disco estará. E ele mesmo, Smith, quando fez Clerks, sem saber, fez isso. Antecipou uma jogada e foi para onde vários cineastas estariam. Ele também diz que “perdeu a mão” num determinado momento, especificamente com Zack and Miri make a porno, o que o levou a dirigir um filme de estúdio e a mudar completamente seu foco ao fazer um filme de terror, Seita mortal (Red State). Seita mortal não estreou como um filme normal. Assim como Nice guy Johnny não foi para o cinema, o último filme de Smith foi exibido pelo próprio cineasta, que viajou de ônibus a diferentes cidades dos Estados unidos e Canadá. Seu equipe de produção entrou em contato direto com donos de cinemas, definiram valores e datas, promoveram as exibições via twitter e facebook e lotaram cinemas ao redor da América do Norte, com o próprio diretor fazendo sessões de perguntas e resposta(s) depois de cada exibição. Modelo similar está sendo adotado por Burns para promover o seu próximo filme: Newlyweds.

Ao estudar tudo isso, é claro que me peguei pensando a respeito de como essas coisas poderiam ser traduzidas para os quadrinhos. Assim como Burns atua em filmes de estúdio para ter dinheiro para financiar seus longas, muitos escritores e artistas trabalham na Marvel e DC para criar um nome forte o suficiente para que possam produzir suas histórias autorais em outras editoras ou nas divisões de quadrinhos autorais das duas grandes. Mas fiquei pensando principalmente na dimensão “faça você mesmo” da coisa. Se é possível fazer isso com cinema, uma mídia infinitamente mais cara do que os quadrinhos, por que não adotar alguns dos conselhos de Burns e Smith como alternativas reais de produção fora dos moldes dos grandes estúdios/editoras? Porque essas alternativas apresentadas pelos cineastas não é ingênua ou ignorante como a daqueles que acham que é preciso ser underground para sempre ou se virar contra a “indústria cultural” para fazer algo artisticamente relevante ou válido. O jogo não é “vamos mostrar o dedo médio para os executivos e acreditar que assim somos melhores do que eles”. O jogo é “vamos mostrar que não precisamos seguir moldes para fazer o que queremos fazer”. E esse é um jogo jogável em qualquer área do entretenimento.

Então vá e faça sua arte e volte para nos mostrar o que fez. Apresente-se. Seja não só o ator/diretor/produtor de sua produção, mas aprenda que, nos dias de hoje, não basta “construir para que eles venham”. É preciso ser polivalente, jogar em todas as posições e, se preciso for, inventar algumas outras para serem jogadas também. Principalmente para desenhistas e escritores de HQs, pessoas de natureza pouco social, isso pode ser um problema, mas é um problema que você vai ter que superar se quiser sobreviver fora do esquemão industrial colocado. Ou você pode ir desenhar o Batman.

 

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