Multiverso ComicCon 2012

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Aconteceu no final de semana dos dias 23 e 24 de junho, a segunda Multiverso ComicCon, em Porto Alegre. Ao lado da Gibicon, de Curitiba, a Multiverso se coloca como um dos principais eventos de quadrinhos e cultura pop da região sul do país. É uma responsabilidade grande para quem tem apenas dois anos de existência, mas tal status é consequência da qualidade da organização e da resposta positiva do público, demonstrada pela presença significativa de fãs durante os dois dias de evento. Segundo os realizadores, o aumento do número bruto de participantes foi da ordem de 30% em relação ao ano passado, sendo que o aumento dentro do público-alvo primeiro – que é o de fãs de quadrinhos – foi de mais de 70%. Um reflexo claro da expansão do próprio mercado de quadrinhos no Brasil, que vê na atualidade a sua mais prolixa e (por enquanto) sustentável fase de produção, lançamento e consumo, tanto via editoras quanto via produção independente.

Existe no Rio Grande do Sul uma já consagrada tradição de eventos de animes, mangás e cultura japonesa, o que justifica a presença grande de otakus na Multiverso. Era fácil encontrar salas dedicadas a Naruto ou a outras séries japonesas, bem como cosplayers dos personagens de mangás e animes mais queridos. Isso, claro, não é um defeito ou uma qualidade em si, apenas uma característica com a qual os organizadores da Multiverso terão que lidar sempre.

Por outro lado, foi interessante perceber que a maior parte dos cosplayers – senão todos – que estavam lá para competir, usavam roupas de heróis e vilões dos quadrinhos ocidentais. E é preciso aqui fazer um à parte: vários cosplayers fantásticos. Thor, dois Batmans muito bons, Supergirl (que usou duas versões de roupas da heroína, uma em cada dia), Gavião Arqueiro, Jean Grey e Coringa são apenas alguns dos que mais se destacaram. A qualidade das roupas e o compromisso dos heróis que as usaram é algo a se reverenciar.

Não é qualquer pessoa que consegue ter a mesma disposição, muito menos a mesma coragem que essa turma demonstrou. Parabéns para todos eles e espero que essa produção caprichada aumente ainda mais no ano que vem. Além disso, cosplayers são um termômetro muito imediato para eventos como esse. Exibicionistas por excelência, aqueles que se predispõem a ser o Batman ou o Superman durante um final de semana inteiro não o faria se fosse para serem fotografados por vários entusiasmados que aparecessem com uma câmera na mão. E os cosplayers da Multiverso foram fotografados e filmados por muito mais do que por um bocado de gente. Incluindo aqueles que estavam travestidos como super-heróis não tão conhecidos assim, X-23 e Animal boy (que era uma garota, mas quem está julgando qualquer coisa aqui?).

A se julgar pela versão do(a) Animal Boy que lá estava, por sinal, fica claro outra coisa importante: a presença de fãs que conheceram os heróis via seus desenhos animados. Lembro de uma amiga que, há pouco tempo, disse que não iria nunca assistir ao filme do Lanterna Verde porque eles fizeram um Lanterna loiro e branco no filme e o Lanterna, segundo ela, era negro. Como assim? Ora, a única versão do Lanterna Verde que ela conhecida era a do desenho da Liga da Justiça, onde o Lanterna Verde é John Stewart, de fato, um homem negro.

E aqui vai a primeira crítica à Multiverso: a falta de espaço dedicado a esses novos fãs, que não estão familiarizados por completo com a cultura dos quadrinhos, sejam crianças, adultos ou adolescentes. Não apenas aqueles que conheceram os heróis por meio dos desenhos, mas também (e talvez principalmente) para quem está conhecendo um pouco deste universo pelos filmes de sucesso contemporâneos. A Multiverso, não sozinha, é verdade, ainda mantém aquela atmosfera de ser algo pensado “de fã para fã” em vários sentidos. As informações dentro do Colégio Marista São Pedro, onde aconteceram as atividades, eram poucas e muito discretas. A não ser que o visitante soubesse o que determinados símbolos em uma porta, por exemplo, significavam, ele não adivinharia que ali existia um espaço dedicado a Naruto, muito menos que aquela sala estava exibindo desenhos animados da série e disponibilizando freeplay de Naruto Shippuden: Ultimate Ninja Storm 2.

E isso se repetia em quase todos os espaços. Essa falha em receber os novatos estava presente também na falta de um espaço voltado para crianças. Apesar de terem comparecido ali uma quantidade significativa de crianças, muitas devidamente vestidas como os heróis prediletos de seus pais, faltou um lugar onde os pequenos pudessem sentar e ler gibis ou pintar a cara como o Homem-Aranha ou rabiscar umas cartolinas para depois serem cortadas, dobradas e coladas e virarem quadrinhos feitos por crianças. Enfim, ideias a respeito de espaço infantis são várias e todas possíveis de serem realizadas, algo que espero que esteja presente no ano que vem. O cuidado na formação apropriada desses novos leitores vai garantir que a atual fase diferenciada dos quadrinhos no Brasil não seja apenas mais uma subida na montanha-russa que sempre as marcaram por aqui, mas um sustentável mercado a ser para sempre explorado e, sempre que economicamente possível, expandido.

Um dos painéis da Multiverso foi justamente a respeito do mercado de quadrinhos no Brasil atual. Composto por Sidney Gusman, editor da Maurício de Souza Produções, Levi Trindade, editor da DC no Brasil e Fabiano Denardin, editor da Vertigo na Panini nacional, a mesa conversou sobre este momento das HQs no Brasil, dando destaque para o fato de que ele não acontece num vácuo, sendo parte do momento de estabilidade econômica, do aumento do conhecimento geral acerca dos quadrinhos (que, caso ainda não esteja claro, não são mais só para crianças), dos já mencionados filmes de sucesso – que, verdade seja dita, são mais da Marvel do que da DC, apesar do êxito dos Batmans – e do aumento do interesse nacional na leitura. Esse, também, ligado ao aumento da renda média das famílias que possibilitou a aquisição de mais cultura. Mas não vamos falar de política, certo? Viemos aqui para falar de coisas importantes, como quadrinhos e fãs e a mágica que acontece quando esses são tratados com competência.

Ao longo do evento, vários painéis falaram sobre diferentes aspectos do mundo das HQs, como a criação de roteiros, webcomics, diferentes mercados estrangeiros, entre outros. Um prato cheio para quem quis aprender mais um pouco sobre quadrinhos e sobre o que os cerca. O fato de existir apenas um palco para todos os painéis foi outro aspecto que deixou a desejar, mas os próprios organizadores comentaram a respeito desse pormenor e explicaram que isso se deveu a restrições impostas pela escola onde o evento aconteceu. Sei, via informações internas, que esse problema já é conhecido e está sendo pensado para o próximo ano.

Outro aspecto também já endereçado para o próximo ano é a presença certa dos estandes de vendas de quadrinhos, brinquedos, canecas, camisetas e material nerd de todo tipo. Mais do que espaço de vendas, os estandes são onde os fãs se encontram com alguns dos seus artistas prediletos, conseguem conversar, bater papo, se divertir ao lado de pessoas que jamais pensaram que seria possível conhecer. Para os artistas e criadores em geral, é o espaço da interatividade com seu público, a chance de conhecer aquela pessoa que sempre comenta no seu site ou que fez um post elogioso no seu blog sobre determinado trabalho. É também o lugar onde profissionais se encontram, trocam experiências e histórias de perrengues independentes, fazem novos contatos, criam ou reforçam laços que só são possíveis de festival em festival.

Para todos que publicam quadrinhos no Brasil, sejam independentes ou editoras, esses lugares são imprescindíveis. Foi impressionante ver que ali não estavam nomes importantes do mercado editorial brasileiro, uma falha que não é dos organizadores, mas das editoras. Essas, por incrível que pareça, não entenderam que parte importante do trabalho é chegar às mãos do público, “ir aonde o povo está”, para citar o poeta, conversar com as pessoas, se apresentar, se expor e, consequentemente, vender seus produtos. Gusman falou rapidamente sobre o problema da distribuição setorizada e sobre o atraso da chegada do material da Maurício de Souza Produções no sul do país, mas onde estava a Panini que não levou para a Multiverso um estande cheio de HQs de super-heróis e de publicações da MSP? Onde estava a HQM Editora, responsável por publicar os quadrinhos de Os Mortos-Vivos no Brasil? E a editora LeYa, que publica a saga de George R.R. Martin, Crônicas de Gelo e Fogo (também conhecida como Game of Thrones)? Nenhuma dessas estava lá, talvez por acreditarem que seria um investimento alto para retorno baixo. O que, se for verdade, mostra uma ignorância homérica. Todas as milhares de pessoas que passaram por ali são consumidores em potencial. Mesmo que não saiam do evento com as mãos cheias de revistas e livros, o fato de saberem mais a respeito das editoras e de terem contato com seus representantes pode garantir uma venda futura. Com o advento da venda online, ferramenta que todas essas editores possuem (ou deveriam, pelo menos), o contato imediato serve como uma introdução do novo leitor ao universo daquela editora.

Admito que talvez essa visão seja particular e um tanto mineira da minha parte, mas o que vi naqueles estandes foram conversas gerando vendas e caras amarradas gerando antipatia. Quanto mais contato, mais boa vontade, mais sorrisos e apertos de mãos, mais clientes satisfeitos. E como é legal ver passantes se tornarem clientes e clientes se tornarem conhecidos carinhosos! Não tem nada que pague a satisfação no rosto de um garoto que sai de um estande com o autógrafo do seu criador favorito, um criador que ainda foi legal o suficiente para conversar com ele, dar dicas, trocar algumas piadas sujas e risadas abertas.

São de momentos mágicos assim que se faz um evento de sucesso e desses a Multiverso esteve cheio. Portanto, parabéns ao Emerson, à Marília e a toda equipe da organização que fizeram um belo trabalho. Ano que vem estaremos em Porto Alegre, fazendo a mágica acontecer mais uma vez.

** Algumas observações: 1) as fotos que ilustram este texto foram roubadas do site do Vitor Cafaggi e do facebook do evento; 2) o evento de 2012 teve 29 convidados. Deveriam ser 30, mas Lourenço Mutarelli cancelou na última hora; 3) Eduardo Risso esteve por lá e foi um doce de pessoa, assim como foi o Carlos Ruas, mostrando que grandes nomes são grandes porque merecem, não porque insistem que são; 4) o estande do Pandemônio foi dividido com o grande Galvão Bertazzi, que estava lançando o primeiro livro de tiras Vida Besta. Além do livro ser uma enorme diversão em si, o autor é um cara muito bacana, ótimo artista, gente boa para caralho e, descobri por lá, músico! Clica ali sobre Vida Besta e compra o livro que você não vai se arrepender.

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