A história de Lisey

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Love: a história de Lisey, quadragésimo terceiro romance escrito por Stephen King,é um livro estranho. Faz parte da categoria na qual se enquadra a maioria dos agora mais de cinquenta títulos do autor: as histórias de terror. Mas é também uma história de amor doce e sincera. Parte da estranheza do romance vem dessa dicotomia, mas também vem das escolhas narrativas, que se aproximam mais de outros títulos do autor como Buick 8 do que de seus clássicos como O Iluminado ou Saco de Ossos. Esses últimos têm uma pegada bem mais direta e dura, enquanto Lisey e Buick 8 têm com o fantástico uma relação muito próxima. Nesse sentido, Lisey se aproxima também de A Escolha dos Três, segundo livro da série A Torre Negra, por estar em uma categoria de romance de King onde a parede entre a realidade e a fantasia é finíssima, quando se quer existe de qualquer maneira.

A Lisey do título é a esposa de um famoso e consagrado escritor, Scott Landon, que, quando a história começa, está morto há dois anos. Depois de postergar esse tempo todo, a viúva decide que chegou a hora de arrumar o antigo quarto onde o marido costumava escrever, separar os trabalhos todos e decidir o que fazer com manuscritos, textos avulsos e romances inacabados, caso esses existam. Para essa tarefa, no começo, ela conta com a ajuda de Amanda, uma de suas irmãs, mulher complicada, que sofre de problemas psiquiátricos. E não contribui nada para a situação o fato de que, há dois anos, Lisey vem sendo procurada constantemente por estudiosos e fãs do trabalho de seu falecido marido. Pessoas, em sua maioria, bem intencionadas, querendo nada mais do que ter a chance de levar para o mundo todo o trabalho – mesmo o incompleto – de Landon. Outros, no entanto, querem apenas roubar uma olhadela no que o famoso escritor Scott deixou na gaveta antes de morrer. Os problemas começam quando um desses fãs se mostra um psicótico perturbado e Lisey passa a ser perseguida. Além disso, a sanidade de sua irmã se deteriora rapidamente e cabe à viúva resolver questões de família, os problemas de sua própria vida e ainda descobrir o que Scott deixou para que ela encontrasse e pudesse consertar tudo o ele deixou inacabado – o que, nem de longe, se mostra serem apenas ensaios, contos e livros.

A descrição fria do argumento do romance, no entanto, não retrata dois lados muito interessantes dessa obra. O primeiro é que A história de Lisey é o retrato da vida interna de um casamento. Tão palpável e tão rica que, em determinados momentos, o leitor se sente como uma espécie de voyeur que observa de um ponto escondido os medos e as alegrias da intimidade de um casal. King escreveu esse livro pouco depois de sofrer um acidente que quase o matou e, apesar de ter dito várias vezes que a história não é sobre ele e Tabitha, sua mulher, já admitiu que, se ele morrer antes dela, algumas das situações vividas por Lisey serão revividas por Taby. E King, ao longo desses anos de sucesso, já sofreu mais de uma vez com fãs malucos – um andava com um cartaz que dizia que ele, King, era quem na verdade tinha matado John Lennon.

O segundo ponto é que a história, ainda que sempre traga a doçura e a delicadeza de um casal à tona, é assustadora.

Sempre que King é alvo de qualquer tipo de notícia ou reportagem, ele é rotulado como “o rei do terror” ou algo que o valha, uma prática que sempre, como é de praxe quando os assuntos são rótulos, reduz o alcance da bibliografia do autor. Mas A história de Lisey é de fato um livro de terror. As histórias paralelas àquela principal (da busca de Lisey por respostas), em especial as da infância de Scott e da historicidade de doenças mentais na família dele, são apavorantes. Além disso, trazem consigo dor e revolta enormes, uma vez que os leitores (e a própria Lisey) são testemunhas de mágoas que já aconteceram e sobre as quais nem Lisey nem o leitor podem interferir. Essa dor acompanha a viúva Landon e esbarra também, claro, no leitor, caso esse se apaixone pela personagem principal, algo que é bem fácil de fazer, por sinal. Lisey é uma mulher forte, que passou pelas mais diversas provações para ficar com o homem que ama. E, diga a verdade, quem não consegue se identificar com uma pessoa que passa pelos mais diversos perrengues por amor?

Estranho, para quem não é familiarizado com o trabalho de King, que se fale de amor quando os assuntos são os seus livros. Mas o amor está presente em vários de seus escritos, se não em todos. Seja como tema principal, seja como uma das variáveis com a qual os protagonistas têm que lidar. Para voltar a falar sobre obras antes citadas, O Iluminado tem no amor de um filho por seu pai um dos mais presentes temas e Buick 8 é tanto sobre uma maquinaria alienígena que às vezes engole pessoas inteiras quanto sobre o amor fraterno que ultrapassa gerações. O que diferencia Lisey de outras histórias é o fato do amor aqui ser o amor romântico, aquele mais associado a folhetins do que a romancistas de terror. No entanto, é esse amor o que supera as adversidades e consegue ir além do que está estabelecido como normal ou mesmo como próprio do mundo dos seres humanos. O amor de Lisey por seu marido morto (e vice versa), ultrapassa as barreiras do conhecido e vai além do fantástico, alcançando a própria tessitura do que se entende como vida e morte, como construção e destruição, como criatividade e obsolescência. Não é à toa que o próprio King já disse que este é um dos livros prediletos que ele mesmo escreveu.

Ainda assim, não é um livro fácil de ler ou mesmo uma leitura descompromissada. O autor pede muito de seu leitor. Principalmente, como em quase todos os seus livros que lidam com o fantástico, que se aceite uma viagem que vai além daquela do mundo dos sonhos e entre no reino do impossível. Caso o leitor escolha não se distanciar tanto assim do universo de histórias do King, pode-se imaginar o “garoto espichado” de Scott, entidade presente numa existência à parte visitada por Linsey e por seu marido, como uma versão criada por Landon para Randon Flagg ou para o Homem de Preto dos livros da Torre Negra, ambos inimigos referenciados em diferentes trabalhos do “universo de King”. O Garoto Espichado, como Flagg, é uma entidade de poder imenso que consegue, caso o escritor não se proteja devidamente, acabar com os mundos criados no papel e, quem sabe, até com mundos de verdade. O que o mantém longe é a constante força criativa, a capacidade de escrever e de desenvolver mundos novos, personagens e situações.

É uma metáfora dura e imperdoável que diz ao escritor, e àqueles que querem se tornar escritores, que é necessário nunca deixar de fazer aquilo que você é capaz de fazer. A pena para não cumprir o seu dever como um dos privilegiados capazes de acessar o lago da criação, é ficar preso no limbo para sempre – ou pior, ser comido por um monstro horroroso que se alimenta na calada da noite, quando a floresta que envolve o lago da criação está mais escura e sombria.

Então crie e escreva e pinte e dance e ame. Ame como se sua vida dependesse disso, porque pode ser mesmo esse o caso.

Leandro Damasceno
26 de junho de 2012
Algum lugar entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte

** Observação: o título original da obra é Lisey’s Story, literalmente A História de Lisey. Em PORTUGUÊS, o título é Love. Uma palavra que, se você não sabe, não é portuguesa. Nunca vi nada mais imbecil no mundo editorial brasileiro e confesso que fiquei postergando a compra desse livro só por causa desse título ignorante, estúpido e idiota. A publicação é da editora Objetiva e a tradução foi de Fabiano Morais. Não sei se a ideia de Love foi dele ou se foi imposição da editora. De qualquer maneira, continua sendo uma escolha podre.

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