JOGADOR Nº1

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Caso Atari 2600, Jogos de guerra e Dungeons & Dragons sejam mais do que nomes estranhos para você, o livro Jogador Nº1, de Ernest Cline, pode ser uma boa diversão. A obra conta a história Wade Watts e de sua busca por um tesouro que pode mudar a condição da humanidade, ou quase isso.

Tudo se passa, ao começo dos acontecimentos, no ano que 2044, quando as fontes de energia fósseis do planeta já se esgotaram. A sociedade está em frangalhos, com os níveis de pobreza, desemprego e desespero atingindo níveis exorbitantes. As pessoas mais pobres que têm onde viver moram nas chamadas pilhas, que são grandes torres compostas de motorhomes, soldados um sobre os outros em parques nos subúrbios das cidades. O chão das pilhas é um lugar onde a luz do sol quase não entra e onde restos dos primeiros trailers apodrecem.

Neste cenário maldito, uma das poucas coisas que prosperam é o OASIS, um jogo de imersão nos moldes do Second Life, mas que também contém elementos de Facebook, World of Warcraft e tudo mais o que compõe a internet hoje. Pode-se fazer tudo no OASIS: estudar e se formar em diversos níveis de educação, pode-se jogar, lutar, aumentar o nível do seu avatar, participar de salas de bate-papo, namorar, ler livros, quadrinhos etc. O livro de Cline não fala sobre o nível da “realidade” dos gráficos do OASIS, mas dá a entender que é algo quase foto realístico, uma vez que o jogo é jogado com luvas especiais e óculos que projetam as imagens dentro da retina do usuário. Para os mais ricos, existem ainda cadeiras especiais, macacões que simulam estímulos na pele, torres que soltam odores de acordo com o que acontece virtualmente, entre vários outros dispositivos. Tudo para que o processo de imersão seja o mais absoluto possível. Em um mundo onde a realidade é terrível, um universo virtual que permite ao indivíduo ser e fazer o que quiser é um… com o perdão do trocadilho ridículo, um oásis.

O arquiteto disso tudo é James Halliday, um fanático pela cultura dos anos 80 que programou seu jogo definitivo em cima de referências dos filmes, videogames, seriados, livros e todo tipo de entretenimento que compôs aquela década. Halliday é a pessoa mais rica do mundo e a mais reverenciada e a mais admirada e a mais querida e ele está morto.

O livro abre nos contanto parte deste palco onde a narrativa irá se desenrolar e falando sobre a morte de Halliday. Mais precisamente, sobre o que essa morte iniciou. Ao perecer, Halliday lança um vídeo para todos os usuários do OASIS (que são todas as pessoas do mundo, presume-se) contando que ele escondeu no jogo três chaves que abrem três portões especiais. Para descobrir onde estão as chaves, os participantes da caça têm que dominar as mesmas coisas que Halliday adorava: videogames, cinema, música, seriados, desenhos animados, quadrinhos, livros e tudo o que compôs a cultura pop dos anos 80. Mais do que fazer referências a várias obras, Jogador Nº1 é composto dessas obras. Elas estão presentes na própria tecitura da qual é fabricada o romance. Ainda assim, Cline explica quase todas as referências, datando-as e descrevendo-as, para que todos os leigos possam testemunhar a busca junto com os nerds que entendem 95 % das peças citadas.

A primeira pessoa a descobrir onde estão localizadas todas as chaves e vencer os desafios de todos os portões, ganhará a fortuna de Halliday, estimada em alguma coisa como 300 bilhões de dólares, e domínio total sobre o OASIS. O vídeo póstumo traz ainda uma estrofe que é a dica inicial para a primeira chave. Quando conhecemos isso tudo, cinco anos já se passaram da morte de Halliday e ninguém descobriu nada. As agências de notícia chamam a caçada ao Ovo de Páscoa de Halliday de A Busca e, até aquele momento, A Busca foi um grande fracasso para o mundo inteiro.

É aí que entra em cena o personagem principal do romance, Wade Watts – ou, como ele é mais conhecido no meio dos caçadores do ovo de Halliday – o avatar de nome Parzival. Watts é quem descobre a localização da primeira chave e é a primeira pessoa a ter seu nome inscrito no mítico placar para onde vão os nomes de todas as pessoas que conseguem atingir os objetivos da busca. Ao longo da trama, conheceremos outros amigos e inimigos de Watts, algumas de suas dificuldades particulares, em um primeiro momento, incluindo os problemas da vida real.

Ernest teve uma boa ideia e a inseriu em um cenário maravilhoso para quem cresceu nos anos 80. O problema é que Ernest Cline não é um grande escritor. Ele sabe contar uma história com alguma competência, mas suas habilidades param por aí. O livro tem problemas sérios de continuidade, que poderiam ter sido resolvidos com uma revisão mais atenta do manuscrito original, e a versão em português peca em alguns pontos também por falta de revisão mais atenta principalmente no que diz respeito à digitação. “Saber de luz” e “o X-men” são apenas dois exemplos dentro de vários outros. Erros bobos, mas que enchem o saco por serem recorrentes.

O que compromete a história mesmo é a falta de habilidade do seu escritor em realizar uma ideia interessante. Suas escolhas narrativas são desesperadas e Watts, o protagonista, é quase perfeito, tendo sempre as ferramentas necessárias para resolver quaisquer de seus problemas. Ele é um gênio, tem memória fotográfica, lembra de tudo, sabe de tudo, sempre tem um plano de salvaguarda, enfim, é aquela pessoa ideal que o escritor gostaria de ser. A ideia inicial que vende a um herói que tem que se livrar dos problemas do dia a dia enquanto parte em sua busca heroica (e se você pensou aqui em Homem-Aranha, provavelmente está muito certo), é descartada rapidamente. O mundo real, de fato, quase desaparece por completo em pouco tempo em função da busca dentro do OASIS. O que não é um problema em si, mas as soluções encontradas por Cline para retirar Watts do mundo real e colocá-lo quase exclusivamente no mundo virtual são paternalistas, caem prontas no colo do garoto e ainda só melhoram com uma providencial intervenção no último ato. É uma saída fácil para um cara que, para o seu criador, é perfeito e merece tudo o que quiser conquistar.

O que explica o sucesso do livro. Sem querer entrar muito em questões sociológicas, psicológicas ou filosóficas (mas já fazendo justamente isso), é possível traçar um paralelo entre Watts e a geração que cresce na contemporaneidade com o mundo ao alcance das mãos. Watts é, assim, um espécie de projeção de um adolescente mimado, que vê seus problemas reais desaparecerem sem que ele tenha que fazer nada e que, se tem algo de verdade para se preocupar, essa preocupação é virtual, não existe de verdade, não vai de encontro a ele. Talvez Watts seja ainda visto futuramente como o primeiro “herói” dessa geração que não está sendo criada para resolver problemas, mas que, ao contrário, é medicada para evitá-los. Basta fugir para um mundo fantástico e tudo será perfeito. E, mesmo que não seja perfeito, não é a realidade, então, qual é o perigo?

Poderíamos passar mais tempo falando sobre as implicações dessa linha de raciocínio (ou de falta de raciocínio, como queira), mas não foi para isso que viemos aqui. Saiba apenas que Cline produziu com Jogador Nº1 uma leitura fácil e rápida. Seria o equivalente literário de um filme de ação: veloz, com um verniz que pode soar pensado e produção cheia de fogos de artifício, mas de qualidade bem duvidosa, para dizer o mínimo. Talvez, Jogador Nº1 seja ainda aquele filme ou seriado dos anos 80 que você sabe que é ruim, reconhece todos os erros, e ainda assim confere até o final quando está passando na televisão.

OBS:
1 – No romance, a caça que Halliday propõe é comparada com outros momentos da história do videogame onde informações foram escondidas dentro de determinados jogos. A essas informações escondidas (tanto nos videogames quanto em outras instâncias midiáticas) é dado, nos Estados Unidos, o nome Easter Egg. Traduzido literalmente, “easter egg” é Ovo de Páscoa, e a denominação vem da tradição de vários países de procurar por ovos de páscoa durante a celebração desse feriado cristão. Soma-se à mitologia do nome o costume da última família imperial russa de dar presentes em formatos de ovos decorados e elaborados que continham surpresas dentro. No Brasil não existem essas tradições. Nem a de caçar ovos de páscoa, nem a de dar babushkas em formato de ovos durante a páscoa, no entanto, a tradução de Jogador Nº1, de Carolina Caires Coelho, resolveu manter o termo literal. Assim, a caçada de Halliday é chamada de caçada pelo Ovo de Páscoa de Halliday, o que não faz muito sentido para o público brasileiro. Uma pequena explicação a respeito da escolha do termo, que fosse mequetrefe como essa que acabei de fazer aqui, seria bem vi
nda.

2 – Jogador Nº1 está sendo adaptado para o cinema, com roteiro do próprio Ernest Cline (roteirista do filme cult Fanboys). A última ilustração desse post é de Gordon Jones, produzida a pedido do próprio Cline para que ele pudesse visualizar melhor o que está pensando como visual do filme.

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