Harvey Pekar’s CLEVELAND

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Entre as várias questões postas frequentemente para todas as pessoas que fazem quadrinhos uma que se destaca sempre é “por que quadrinhos?” De certa forma, a pergunta ressoa como aquelas sempre postas para romancistas que escrevem sobre terror, horror e o macabro de forma geral e que querem saber por que esses escritores escolheram tais temas como os principais de suas obras. Por trás destas está, na verdade, uma indagação que é muito mais evidente do que os indagadores deixam perceber e que pode ser explicitada como: “Que merda aconteceu na sua vida para que você escolhesse fazer isso? Onde foi que te quebraram o suficiente para que você se voltasse para tal coisa?”

Entre as milhões de respostas dadas pelos mais diversos profissionais dos quadrinhos ao longo dos anos, a de Harvey Pekar foi uma das que entrou para a história como particularmente pertinente: “Quadrinhos são texto e imagens. Você pode fazer qualquer coisa com textos e imagens.”

Apesar da sabedoria escondida na naturalidade dessa fala, pode ser contraditório pensar que alguém que acreditava nisso construísse narrativas de tão (aparente) simplicidade. Na maioria das histórias escritas por Pekar, tanto para sua seminal série American Splendor quanto para especiais e graphic novels, pouca coisa faz com que o leitor interessado na construção técnica de uma história em quadrinhos pense que aquilo que ele lê só poderia ser contado em quadrinhos. Quase nada do trabalho de Pekar utiliza de construções narrativas que seriam impossíveis em outros meios. Suas histórias são textos e imagens. E nisso, como na sua explicação para o fato de contá-las em quadrinhos, esconde-se a força de sua existência.

Em Cleveland, publicado em maio de 2012 pela editora americana Top Shelf (dois anos após a morte do autor), vemos mais um exemplo dessa simples força dos quadrinhos de Pekar e sua tremenda capacidade como narrador, historiador e importante figura das HQs independentes norte-americanas. Disfarçado em um conto histórico, que começa com a recapitulação de triunfos passados do time da basebol da cidade e com uma explicação acerca dos primeiros colonizadores que se assentaram no território onde seria fundada a cidade de Cleveland, Cleveland, a HQ, é um conto sobre como Pekar vê o passado e o presente de sua terra. Fiel ao espírito corrosivo com o qual trata de qualquer outro assunto em suas histórias biográficas, ele não deixa de apresentar ao leitor as partes que podem ser vistas como “erros” da população de Cleveland ao longo de seu desenvolvimento desde 1795 até 2010. Dentro deste cenário, Harvey traça a historicidade do lugar até seu apogeu, nos anos 1950, e fala de novo e de novo a respeito da decadência cada vez mais evidente de uma cidade que, se olhar para si com mais cuidado, ainda tem motivos para se orgulhar de si mesma.

Com uma pequena transição, o conto de Cleveland deixa de ser exclusivamente da cidade e se torna um conto sobre Harvey Pekar na cidade. Nada mais esperado, uma vez que todo o trabalho de Pekar nos quadrinhos é baseado em histórias autobiográficas. Assim, conhecemos mais a respeito de seus amores e desamores, seus amigos, sua vida nas ruas e bairros a respeito dos quais ele descreveu antes. Como fez com a cidade, Pekar é cruel consigo mesmo, falando tanto de seus acertos quanto de seus erros em relação a ele mesmo e aos outros. Ou, melhor dizendo, outras, uma vez que boa parte da porção biográfica de Cleveland é voltada para a vida amorosa do personagem principal. Suas duas primeiras esposas, seus casos e, claro, seu casamento com Joyce Brabner, mulher que seria sua companheira até o final de sua vida.

Como não é o foco da história, pouco é mencionado a respeito de seu trabalho em quadrinhos, mas Robert Crumb faz uma participação especial em dois quadrinhos, suas aparições no programa do David Letterman são mencionadas, bem como sua relação com fãs que o procuram para conversar. – Até o final da vida, o nome e o telefone de Harvey Pekar figuravam na lista telefônica da cidade de Cleveland e bastava uma consulta rápida para que fãs soubessem onde o autor morava. Não era raro que alguns desses aparecessem para conversar, pedir conselhos, falar sobre American Splendor ou sobre as coisas da vida. Talvez a maneira aparentemente transparente com a qual Pekar contava a respeito de sua vida nos quadrinhos dava sensação de proximidade aos leitores. Ora, amigos próximos se visitam. E era isso que as pessoas faziam com Harvey. Iam visitá-lo, pagavam-lhe uma xícara de café e conversavam sobre qualquer coisa: desde conselhos matrimoniais até detalhes da vida como profissional do mundo dos quadrinhos. – O filme American Splendor (chamado no Brasil de Anti-herói Americano – um nome tão imbecil quanto são as pessoas que traduzem nomes de filmes em nossa terra), também é mencionado, mas rapidamente. (Dirigido por Shari Springer Berman e Robert Pulcini, Anti-Herói Americano teve Paul Giamatti vivendo Harvey Pekar com maestria. Apesar de mostrar um Harvey considerado por muitos muito mais mal humorado do que a pessoa real era, o filme é lindo e vale a pena ser assistido com carinho. É evidente o respeito e a admiração dos realizadores para com Pekar, sua família e, principalmente, seu trabalho como autor. Destaque também para a interpretação impressionante do ator Judah Friedlander, que vive Toby Radloff, amigo de Harvey e autodenominado Genuine Nerd).

Não por acaso, a introdução de Cleveland é escrita por Alan Moore, autor de quadrinhos conhecido também por seu um amante incondicional de sua cidade natal, Northhampton, na Inglaterra. Entre outras observações, Moore chama a atenção dos leitores, como todos que colocarem seus olhos sobre Cleveland devem fazer, para a arte de Joseph Remnant. Formando uma aliança perfeita com o texto e com o assunto tratado, a arte de Remnant, que lembra um pouco a beleza de Bernie Wrightson e o cartunesco de Robert Crumb, dá o realismo necessário para o leitor entenda onde está pisando, sem deixar de lado o fato de que estamos lendo uma história em quadrinhos. Há muita técnica no traço de Remnant, mas também há o desejo de não se deixar levar pelo excesso de virtuosismo, pela tecnicalidade tão presente em desenhistas que se apoiam demais em referências fotográficas. Os desenhos de Cleveland são verdadeiros também por serem cartunescos e por deixarem que o leitor preencha com sua imaginação, aqui e ali, o que está sendo mostrado.

A terceira e final parte de Cleveland volta a atenção para a cidade e para o que ela ainda representa aos olhos daquele que se tornou um de seus moradores mais conhecidos. De novo, temos tanto a decepção de um morador com o declínio quanto a sua esperança de que a cidade veja dias melhores. Cleveland é uma carta de amor de Harvey para Cleveland. Tem, como cartas de amor, seus defeitos e exageros. Às vezes é brutal, às vezes é macia, mas é sempre apaixonada. Como toda carta de amor, Cleveland tem vários deslizes que poderiam se tornar constrangedores caso não fossem vistos sempre à luz do sentimento aflorado, do pensamento outrora claro agora nublado por sensações expostas de mais. O que, em princípio, é apenas uma histórias sobre a cidade de Cleveland, se torna um conto pessoal a respeito de como uma pessoa muito especial em sua mediocridade se relaciona com o lugar onde viveu as partes mais importantes de sua vida. Ao fazê-lo, nos coloca lá para revivermos essas especialidades com ele e nos faz pensar a respeito de nossas próprias raízes e de nossos próprios lugares especiais.

Mais um exemplo da mágica que se pode conjurar usando apenas textos e imagens.

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1 comentário Adicione o seu

  1. 5horas disse:

    Muito bom, Damasceno. Muito bom.
    Vou ler com certeza.

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