Tradução (parte 1 de infinitas)

A Panini do Brasil está prestes a lançar duas novas séries do selo Vertigo por aqui. Com o fim de Y – O Último Homem e Ex-Machina próximos, a editora escolheu Sweet Tooth e The Unwritten como substitutas. A escolha é interessante, mas o mesmo não se pode dizer da escolha dos títulos em si de cada uma das séries em português.

Sweet Tooth, de Jeff Lemire, ficou com o título original e o subtítulo Depois do Apocalipse, lembrando aquelas traduções inexplicáveis de filmes que tanto acalentam nossos corações aqui no Brasil. Sweet tooth é uma expressão usada nos Estados Unidos para denominar pessoas que têm uma queda por comidas doces. O protagonista da série, Gus, ama chocolates e, por isso, ganha de um dos personagens com o qual encontra esse apelido. Mas o problema maior não está aí, está em The Unwritten.

Criada por Mike Carey e Peter Gross, The Unwritten conta a história de Tommy Taylor, o filho de um renomado escritor chamado William Taylor. Quando a HQ começa, descobrimos que William desapareceu há muitos, deixando órfão não apenas seu filho, mas também os milhões de fãs que acompanharam seus romances fantásticos ao longo dos anos. Como esse desaparecimento nunca foi explicado, todo mundo espera que William um dia volte e termine sua saga inacabada. Enquanto isso, Tommy vive da fama herdada, dando autógrafos em convenções e participando de eventos relacionados à obra do pai. O que acontece é que o personagem principal dos livros, acredita-se, foi baseado no Tommy da vida real e, um dia, uma repórter questiona o garoto a respeito de seu passado, acusando-o de ser uma espécie de ser fictício na vida real. Essa proposição estranha desencadeia uma série e acontecimentos que misturam realidade e fantasia, romances e verdades; metalinguisticamente intercalando o que pode ser, o que é e o que nunca será em histórias que incorporam intertextualidades múltiplas e fazem o leitor viajar por diferentes mundos. Ainda assim, é impressionante como Carey e Gross conseguem manter o conto sempre inteligível e interessante, nunca alienando a história em função das referências. E são VÁRIAS referências!

No Brasil, The Unwritten recebeu o título O Inescrito. E aí é que a coisa fede. “Written” significa “escrito” e “un” é uma partícula usada em inglês para conotar “sem” ou “o contrário de”, como no Brasil são usados prefixos do tipo “des” ou “in” ou “a”. Por exemplo: normal, anormal; satisfeito, insatisfeito; ajustado, desajustado; contente, descontente; sanidade, insanidade e assim por diante. Em um primeiro momento, a tradução literal é aceitável: escrito, inescrito. Mas, diga a verdade, quantas vezes você já viu a palavra “inescrito” escrita em algum lugar? Esqueça o fato de ser uma palavra horrorosa. É um termo que não se usa comumente na língua portuguesa.

O grande problema da tradução não está na tradução em si, mas na adequação do texto original (de partida) para a língua de chegada. Inescrito está correto em termos de tradução, mas não em termos de adequação. Em uma conversa (via twitter, pelamordedeus!) com alguns amigos, chegamos, em 10 minutos, a uma série de títulos que seriam bem melhores para essa série e acabamos escolhendo O DESLETRADO como sendo a alternativa mais legal entre as que levantamos. Não é perfeita e, dado mais tempo, tenho certeza de que conseguiríamos achar nomes ainda melhores, mas não é este o ponto. O ponto é que traduzir literalmente não é sempre a melhor opção. Na maior parte das vezes, não é. Basta ver as traduções das músicas nos clipes do canal Multishow para entender que traduzir literalmente é, na maior parte das vezes, uma puta roubada.

A não ser, é claro, que você acredite que “você não pode ler minha cara de pôquer” seja a tradução perfeita para “you can’t read my poker face“. Caso seja esse o seu caso, por favor, nade de braçada no Inescrito porque você e o software que traduz as letras das músicas no Multishow têm a mesma sensibilidade.

3 comentários Adicione o seu

  1. Liper Gomba disse:

    Eu gosto de “O Não Escrito”. Mas entendo que ia fuder um pouco a lógica da uma palavra só. Mas ainda assim, acho que fica sonoramente mais agradável do que a maioria das opções.

    1. Leandro Damasceno disse:

      O NÃO ESCRITO foi a primeira coisa que eu pensei e ainda acho que é um título bem legal.

  2. 5horas disse:

    Hahahahah!
    Me senti parte do ato.

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