FEST COMIX 2012

Aconteceu durante o último final de semana, em São Paulo, a 19ª Fest Comix, maior feira de venda de quadrinhos e de artigos de cultura pop do Brasil. A Fest é para muita gente (MUITA gente) a chance de comprar todos os quadrinhos que não compraram ao longo do ano, para alguns profissionais é a chance de encontrar amigos e, para o público em geral, uma festa nerd de proporções bastante razoáveis.

A sexta-feira, dia 19, já mostrou qual seria o tom da feira. Muita gente comprando e tomando conta dos corredores, alguns cosplayers, alguns empolgados disputando lutas vidielguêimicas no estande da Saga e outros garimpando títulos perdidos nos estandes de sebos que se espalhavam pelo pavilhão principal. Ao fundo, na grande área da própria loja Comix, várias pessoas indo e vindo com cestas de revistas cheias, o convidado Jamie Delano dando entrevistas entre gôndolas de quadrinhos, gente folheando o gigantesco acervo da Devir recém-adquirido pela Comix, disposto em caixas sem marcação, sem ordem, sem numeração, sem sentido. A sexta-feira não costuma ser tão cheia na Fest Comix e nem tão movimentada. Para bom entendedor, o recado estava dado: esse Fest seria diferente dos demais.

Vale lembrar que, desde o último FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, que aconteceu em 2011 e marcou a virada definitiva da percepção acerca da representatividade dos quadrinhos no mercado editorial brasileiro –, a consciência do público em geral sobre o que a chamada cultura nerd pode movimentar (financeira e popularmente) vem se modificando a olhos vistos. Acompanhando essa mudança estão os sucessos de público de filmes como Os Vingadores, Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge e O Espetacular Homem-Aranha, respectivamente as três maiores bilheterias do ano no cinema, além de seriados de TV como The Big Band Theory e The Walking Dead – esse último adaptado de uma famosa revista em quadrinhos. No Brasil, é cada vez mais evidente a entrada de novas editoras no mercado, publicando quadrinhos que, há apenas alguns anos, seriam grandes fracassos de venda. Hoje, há público com dinheiro para comprar aquilo que mais o interesse e isso está representado na variedade do que se encontra dentro do mercado brasileiro de quadrinhos. Há tanto vários títulos adultos quanto infantis e, o que sempre foi uma grande lacuna no mercado nacional, há opções infanto-juvenis – sejam nas iniciativas brasileiras, sejam, principalmente, nos quadrinhos japoneses.

A turma do mangá, diga-se de passagem, mais uma vez marcou presença. Como é de praxe neste tipo de acontecimento, os meninos e meninas que curtem cultura japonesa se vestiram com roupas ou adereços de seus personagens prediletos e foram para a festa. As cestas de revistas dessa turma é uma atração à parte. Ver a quantidade de coisa que eles compram de uma tacada só assusta e encanta. Os donos de outras lojas de quadrinhos acusam a Comix de promover dumping, uma vez que muitos consumidores guardam para a Fest Comix o dinheiro que vão gastar com quadrinhos o ano inteiro. Dani, uma das proprietárias da loja HQMix, disse: “se esse povo fica o ano todo sem comprar quadrinhos e deixa para gastar tudo o que têm na Fest, por que eu existo? Minha loja pode muito bem fechar, porque como está não justifica a existência de outras comic shops.” O que é um ponto a ser estudado. Em Belo Horizonte, o FIT – Festival Internacional de Teatro – causou um evento semelhante. Durante o festival, graças ao número de peças e ao preço popular dos ingressos, os teatros da cidade ficam lotados. Fora do FIT, quando preços e peças são normais, ninguém vai ao teatro. O que faz questionar: o FIT é um sucesso ou é um mal necessário? Pode ser considerado um evento de promoção do teatro ou se tornou o elitizador daquilo que foi criador para promover? É claro que o mercado de cultura de São Paulo e de Belo Horizonte são bem distintos (assim como o são o do teatro e o dos quadrinhos), mas ainda assim valem as considerações nos dois casos.

Houve quem dissesse que a Fest Comix reúne tantas pessoas por não acontecer em São Paulo um festival de quadrinhos propriamente dito de grande porte, como o já citado FIQ, a Rio ComiCon, a Multiverso (de Porto Alegre) e os ainda recentes festivais de Natal, Manaus, Belém, entre outros. No entanto, cabe aqui mais um questionamento: com a quantidade de dinheiro que o público que frequenta a Fest Comix já tem o costume de gastar, existiria espaço para outro evento de grande porte em São Paulo? Por mais que a renda média da população brasileira tenha crescido nos últimos anos de estabilidade econômica, estamos falando de um público adolescente em sua maioria. Doure a pílula como quiser, mas adolescentes não são, via de regra, a fatia mais rica da população de qualquer país do mundo. Pensar que eles podem juntar várias centenas de reais para gastar em uma grande feira é factível. Duas vezes ao ano? Talvez (de novo, talvez) não seja. Será que existe alguém em São Paulo disposto a pagar para ver?

Daniel Zeppo medindo quase a metade da fila. E estava chovendo.

Seria uma aposta válida, tendo em vista que a Fest ficou grande demais para se conter. O espaço usado há anos, aquele do Colégio São Luiz, não é mais viável. Que o diga o sábado, segundo dia de trabalhos. Naquala tarde a fila para entrar no evento dava volta completa no quarteirão.

Dentro do local de evento, se locomover era uma aventura, pautada pela movimentação da maioria. Em determinados lugares, só era possível ir aonde a massa ia, sem saber muito qual era a direção marcada pela deslocação coletiva. Com o agravo, pouco louvável, de que nem todos os membros dessa comunidade são muito prendados em termos de higiene pessoal. Às cinco da tarde de sábado, o lugar fedia! Ao mesmo tempo, Danilo Beyruth e Vitor Cafaggi davam autógrafos, ambos desfrutando de filas consideráveis de admiradores, os caixas da Comix trabalhavam sem parar, dinheiro era gasto e feito, assim como amizades, namoros e ficadas. Sim, há espaço para o amor nos lugares mais improváveis. Há sempre espaço para o amor, não?

Como aquele demonstrado na parceira de vida e trabalho de Paulo Crumbim e Cristina Eiko, duas pessoas sensacionais que fazem da vida de quem os conhece um lugar mais feliz. Ambos são responsáveis pelo Quadrinhos A2, revista que teve seu segundo número (não-oficialmente) lançado durante a feira. Paulo ainda lançou também Gnut, história que começou a ser narrada on-line, no site do coletivo Pandemônio, e que agora tem sua versão final e completa impressa. Tanto Quadrinhos A2 quanto Gnut serão lançados com pompa e circunstância durante a GibiCon, festival que acontece em Curitiba neste final de semana. Entre os lançamentos oficiais da Fest Comix estavam Astronauta – Magnetar, de Danilo Beyruth, e Valente – Para Todas, de Vitor Cafaggi. Astronauta é o primeiro número do projeto Graphic MSP, idealizado por Sidney Gusman, um dos editores da Maurício de Souza Produções. Gusman tem usado a plataforma da MSP como vitrine para que inúmeros talentos do quadrinho nacional se mostrem para o próprio Brasil e, os livros produzidos dentro do selo Graphic MSP, farão este trabalho de vitrine se estender para o mundo. Além de marcarem uma quebra de paradigma no sentido de tiragem nacional de quadrinhos. Magnetar traz uma releitura do Astronauta, criado por Maurício de Souza nos anos 60, em uma pegada mais juvenil. Além de ser uma grande homenagem ao personagem e às suas raízes, Magnetar é uma boa HQ de ficção-científica, que pode ser lida por qualquer fã do gênero que tenha ou não conhecimento acerca da historicidade do Astronauta original. A independente Valente – Para Todas é a segunda coletânea de tiras de Vitor Cafaggi protagonizadas pelo cãozinho Valente e pelos seus amores, desamores, amigos, amigas e irmãs. Vitor, junto de sua irmã Luciana, serão os responsáveis pela próxima Graphic MSP (programada para fevereiro de 2013), que trará uma história do núcleo central da Turma da Mônica: Cascão, Magali, Cebolinha e, claro, a Mônica.

No domingo era possível ver que, mesmo sendo o último dia, a feira não apresentava a menor intenção de tirar o pé do acelerador. A fila de entrada, logo as dez da manhã, já dobrava o quarteirão e estava a alguns metros de dobrar o quarteirão de novo. Ao longo de toda sua extensão, cosplayers, armas de mentira e muita animação de verdade para mais um dia de imersão sem culpa em um espaço feito para essa gente. E está aí talvez um dos grandes apelos desse tipo de evento. Sim, é uma feira e é um espaço de venda, mas que acaba se tornando também um espaço de confraternização de iguais que veem que seu momento chegou. Ao longo de muitos anos essa turma se manteve em comunidades fechadas, formadas por pequenos grupos de amigos, muitas vezes gente que nem se conhecia pessoalmente. As crias dos fansubs que o diga. Agora, que o mundo deu voltas o suficiente para que essas pessoas entrem na maquinaria da sociedade de consumo e tenham espaços próprios, pode ter certeza que elas vão se jogar com tudo nesses espaços. E vão resignificá-lo em função daquilo que querem extrair dele. É nesse espírito de “marcação de território”, de “aqui eu faço o que eu quero” que vemos um maluco vestido de Aranha-Escarlate dançando, ao lado de um cara que se trajava como o Mercenário (inimigo do Demolidor), o Gangman Style. Ambos, juntos de dezenas de outros cosplayers e de centenas de outros membros da audiência, sendo guiados por duas meninas que ensinavam a coreografia em cima do palco. Diversão para toda família, como se vê.

Apesar do tom de brincadeira, a Fest foi de fato diversão para toda família. Era comum ver pais e mães levando os filhos para passear entre os estandes, se divertindo com os pequenos nas lojas e, em algumas raras, mas divertidas ocasiões, compartilhando fantasias. Bebês também abundaram, crianças de colo, amarradas em cintas, dormindo em carrinhos ou sendo carregas pelos pais estavam por toda parte. Talvez uma loucura, talvez apenas a criação de uma nova geração de apreciadores que não precisará ler quadrinhos escondida ou envergonhada. O que a Fest Comix, assim como os outros eventos nacionais do tipo mostram, é que não há nada o que se esconder ou se envergonhar. Já vencemos essa batalha. O que temos que fazer agora é provar que podemos fazer muito melhor do que imaginam.

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A foto da fila que ilustra esse texto foi roubada – adquirida – do blog do ilustrador Daniel Zeppo. Clique aqui e faça uma visita, digam que fui eu que mandei. Daniel é um poço infinito de timidez e vergonha e é estranho ver que atrás disso se esconde um grande talento, um cara muito legal e uma pessoa que não tem motivo nenhum para se preocupar tanto. Prevejo excelentes acontecimentos artísticos para o Daniel ainda e vários desses têm a ver com quadrinhos. A ele, não só pelas fotos, meus muitos agradecimentos. Inclusive pelo trabalho de navegação fornecido para mim e pro Vitor no dia fomos à HQMix.

O Vitor, por sinal, é um excelente companheiro de viagem. É a segunda vez que nos encontramos em eventos de quadrinhos fora de BH. Na primeira, em Porto Alegre, não tivemos muitas chances de explorar a cidade, mas conseguimos conversar um bocado e rodar por alguns espaços interessantes de São Paulo. Meu muito obrigado vai também para ele pela companhia e pela boagentisse dele de forma geral. Juntos do meu irmão e da Lu, os Damasceno e os Cafaggi precisam voltar a Sampa mais vezes para tomar aquela grande gangrena em forma de cidade de assalto artístico do amor. Em quadrinhos.

De novo, agradecimentos especiais ao Paulo Crumbim e a Cristina Eiko. Não consegui conhecer o Pino dessa vez, mas teremos outras oportunidades. O que consegui foi trazer na mala agora foram os mais recentes lançamentos deles, boas lembranças, boas conversas, boas risadas e muita alegria. Vi os dois pela primeira vez no FIQ de 2011 e os reencontrei em Porto Alegre neste ano, mas foi só agora que conseguimos conversar direito e não poderia ter sido mais agradável. Mesmo com as surpresas de família que fizeram da noite de sexta um evento em si para eles.

Só consegui ir à Fest Comix devido a um errado que deu certo com a HQM Editora. Mesmo não tendo conseguido encontrar com o Artur Tavares, meu muito obrigado a ele, ao Carlos Carlos e ao Leonardo Di Sessa. Nos vimos durante um curtíssimo período de tempo e conversamos menos ainda, mas acho que foi proveitoso. Como o foi o tempo que trabalhamos juntos. Apesar de não fazer parte mais da equipe de colaboradores já há algum tempo e de ter decidido não trabalhar mais com eles, foi um período de aprendizado que levarei para sempre comigo. Para o bem e para o mal. Além disso, fiz bons amigos. E bons amigos é um ganho a respeito do qual eu sou sempre a favor.

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