King David — Kyle Baker

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Rei Davi (King David, ainda inédito no Brasil) é uma graphic novel escrita e desenhada por Kyle Baker, lançada pelo selo Vertigo (da DC Comics) em 2002. A história, como o nome já diz, narra a ascensão do Rei Davi desde seus dias como filho de fazendeiro até se tornar rei do reino unificado de Israel. Davi é considerado o maior governante daquele reino em todos os tempos, tendo sido, segundo consta, um homem abençoado por Deus com diversos dons, como o da música, da escrita (é, reza a lenda, de sua autoria o livro de Salmos da Bíblia) e da estratégia de guerra. Além disso, é uma figura importante também para o cristianismo, que o considera um ancestral do pai adotivo de José, pai de Jesus, e para o Islamismo, que o tem como um profeta.

Mas Baker não se atém a detalhes de crenças e conta a história de um menino intempestivo que se torna um guerreiro famoso, um líder nato e um Rei tão falho quanto aquele que ele sucedeu, o Rei Saul. Antes de Saul, é complicado falar da existência de um Estado de Israel, sendo a região povoada e governada por diversas tribos que brigavam e construíam alianças entre si. Saul, indicado por Samuel, ancião e último juiz das tribos de Israel, assume o trono e faz um governo marcado por guerras e pela sua imaturidade. Não é preciso saber de nada a respeito dessas histórias para apreciar a HQ, mas é bom saber que a narrativa de Baker, em sua maior parte, fala da relação de Davi com o Rei Saul.

Segundo narra a História, Davi é primeiro apresentado ao Rei Saul como um harpista e contratado como músico do rei. Sua carreira de guerreiro começa quando ele é enviado pelos seus pais para frente de batalha com a missão de levar comida para seus irmãos mais velhos, que estão combatendo os filisteus. Indignado com as ameaças de Golias, o pequeno Davi se arma com uma funda e enfrenta o gigante sozinho, vencendo-o com um tiro perfeito. Após essa batalha, ele se torna um famoso militar, tendo músicas que cantam seus feitos entoadas por todo o reino. Essa fama desperta o ciúme e a inveja do Rei Saul, o que desencadeia uma vida de desentendimentos. Após a derrota de Saul em batalha (quando ele se joga sobre sua própria espada), Davi, já um adulto respeitado, assume o trono e reina durante quarenta anos.

Tudo isso está na King David de Kyle Baker, o que a torna uma leitura muito interessante, mas a HQ é uma obra de respeito por diversos outros motivos.

O primeiro é o desenho de Baker, que é sempre um deleite. Quem conhece seu trabalho em Plastic Man sabe da versatilidade do cartunista e de seu timing muito parecido com o das animações clássicas da Disney e da Warner. Não por acaso, Baker foi chamado para ser um dos diretores de animação do longa Looney Tunes: De volta à ação, de 2003. Essa mesma sensibilidade está nas páginas de King David, o que torna a leitura bem mais agradável. Ao mesmo tempo, a torna complicada para quem espera uma HQ “normal”. Desde a escolha de ângulos, passando pela disposição dos quadros e cores, é fácil imaginar que esse trabalho funciona primeiro como um storyboard de animação e depois como uma revista em quadrinhos. Algo que, em entrevista recente, Baker admitiu ser o caso. Sem papas na língua, como é de seu feitio, disse o artista que, se estão transpondo quadrinhos para o cinema a toda hora, ele faria seus roteiros de animação não financiados em quadrinhos primeiro e depois tentaria desenvolvê-los como desenhos animados. King David está de fato em produção como um longa-metragem (é fácil de achar algumas pequenas cenas animados e experimentais no YouTube). No entanto, essa escolha traz alguns problemas para a leitura, como é de se imaginar. Alguns trechos não funcionam muito bem, sendo confusos em relação a quem diz o quê ou a porções da narrativa que mereceriam mais cuidado, enquanto outros são de uma perfeição completa.

Essas diferenças pontuam toda a obra e a tornam desigual, tanto em narrativa quanto em arte. Na mesma entrevista mencionada acima, Baker faz outra afirmação interessante: quando trabalha com aquarela, ele faz sua arte “aguada”, evidenciando que aquele desenho foi feito com aquarela. Quando ele desenha em nanquim, faz questão que o leitor veja que aquele desenho foi finalizado com nanquim. E assim por diante. Ou seja, Baker reclama uma identificação da obra com a técnica que a criou, de forma que o desenho traga em si traços reconhecíveis de sua concepção. Assim, diz ele, seus trabalhos com computador, gritam que foram feitos no computador. Baker não tenta esconder o uso de recursos tecnológicos para a composição de suas páginas e/ou desenhos. Pelo contrário. Ele chama o leitor a ver que aquelas páginas foram concebidas eletronicamente. O uso de modelos 3D, de lensflare, de padrões, de texturas, de repetições, entre vários outros recursos, estão por toda parte. E por querer. Baker quer que esses dispositivos eletrônicos sejam mesmo identificados como tal, em um movimento que clama pela identidade da composição eletrônica como recurso válido e que possui valor em si. Clique para ver a imagem grande

É uma afirmação corajosa, se não um tanto suicida, mas que vale um momento de reflexão. Desde que os computadores foram inseridos no processo de produção de quadrinhos (algo que, diga-se de passagem, Baker foi pioneiro), a tentativa tem sido a de apagar marcas eletrônicas das páginas das revistas. Existe uma parcela de quadrinistas que de fato repudiam o uso da tecnologia. Para essa parcela dos apreciadores de quadrinhos, qualquer coisa que não suje as mãos deveria ser banida do cosmos. Uma tablet é dispensável e uma Cintiq é o primeiro batedor dos cavaleiros do apocalipse, aquele que está a preparar o terreno para o fim dos tempos como o conhecemos. Independente dessa raça em extinção, é fato que há uma percepção tácita de que os quadrinhos devem ser algo de artesanal, de tinta no papel. Baker não só diz que tudo isso não é regra, como vai na direção contrária e reivindica um espaço para a arte digital que se diz arte digital de fato e que quer ser aceita como tal. Tudo bem que o resultado final não é dos mais bonitos e que, muitas vezes, algumas texturas usadas na HQ lembram antigos livros que brincavam com 3D, mas isso é pessoal. Há, com certeza, quem veja essas mesmas texturas e composições digitais como as mais belas das páginas já feitas no mundo dos quadrinhos.

E King David chama a atenção também por outro aspecto inesperado: é engraçada. É uma história muito, muito engraçada. Aquele timing da animação está aqui também, bem como estão piadas que o leitor consegue visualizar funcionando quando animadas ou contadas por talentosos dubladores. Várias das relações entre pai e filho ou entre marido e esposa(s) são construídas para espelhar conflitos modernos, mas sem forçar a mão. O resultado são situações reconhecíveis que não soam anacrônicas. Destaque para aquelas entre Davi e suas mulheres e entre Jônatas e seu pai, o Rei Saul.

Em contrapartida a essa graça toda, está um final de cortar duzentos corações ao mesmo tempo. As dez últimas páginas carregam uma força e um poder que, sozinhas, merecem ser estudadas por qualquer pessoa que queira aprender mais sobre o que se pode fazer com histórias em quadrinhos. Baker se retrai da grandiloqüência da história toda e foca a emoção em detalhes que, Rei Davi esquecera, são aqueles que importam e que fazem de uma pessoa qualquer um homem de verdade. Coisa de quem sabe.

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