Astronauta – Magnetar

“A TERRA É O BERÇO DA HUMANIDADE, MAS O HOMEM NÃO PODE FICAR EM SEU BERÇO PARA SEMPRE.”

 A frase é de Konstantin Tsiolkovsky, cientista russo que viveu entre 1857 e 1935. É considerado o pioneiro dos estudos de propulsão espacial e um dos principais cientistas da astronáutica.

Quando eu tinha algo em torno de 9 ou 10 anos de idade, assisti um filme na sessão da tarde chamado Space Camp. Era uma porcaria de filme B típico dos anos 80, desses que é preciso nunca mais rever para não quebrar o encanto que nos lançou quando os vimos pela primeira vez, mas isso não importa. O que importa é que eu não sabia a respeito de Tsiolkovsky à época, mas Space Camp me ensinou que não podemos viver em nosso berço para sempre.

E é sob essa ótica que agora vejo Astronauta – Magnetar, de Danilo Beyruth e Cris Peter, primeiro número do selo Graphic MSP.

De muitas maneiras, Magnetar fala sobre um pulo para o desconhecido em direção ao porvir, ao que pode ser, e às maravilhas e tristezas que esse salto guarda.

Um Magnetar, que é uma espécie distinta de estrela de nêutrons, se dá quando entra em colapso uma estrela de massa, pelo menos, dez vezes maior que o do nosso Sol. É um fenômeno de campo magnético mil vezes mais fortes do que as estrelas de nêutrons normais, fato que ainda não é compreendido totalmente pela ciência humana. Na história, o Astronauta (e sua nave) vão até um Magnetar para tentar descobrir o que ainda não se sabe, vão em busca dos mistérios, para longe do berço, percebe? Vítima das circunstâncias, o Astronauta acaba sozinho, sem a companhia de seu computador de bordo e tendo que se virar baseado em seus conhecimentos, limitado por um espaço inóspito e cheio de perigos. Na quarta capa do álbum, há um belíssimo texto escrito por Amyr Klink, famoso navegador brasileiro, a respeito de solidão. Klink, que já enfrentou vários perigos viajando solo, faz referência nesse texto ao cruzamento do Atlântico a remo, mas vejo também paralelos com a empreitada que ele enfrentou na Antártica, no início dos anos 90. Narrada no livro Paratii: entre dois pólos, trata-se do ano solitário que Klink passou no continente gelado. Ele desceu para uma baía no verão, ancorou o barco, esperou o mar congelar e por ali ficou até o verão seguinte, quando água degelaria e seria possível navegar novamente. Independente da empreitada que se escolha, Klink é alguém que tem conhecimento de sobra a respeito de solidão e alguém que pode falar do tema com propriedade. E como fazer esse tema se transportar para a HQ sem que essa se torne uma tediosa história sobre nada?

 Talvez esteja aqui a principal característica “adulta” desse livro. Ao longo de todo o processo de promoção da Magnetar, o seu editor, Sidney Gusman, falou de novo e de novo sobre o fato dessa história ser uma releitura adulta do Astronauta do Maurício de Sousa. Mas é isso, não porque tem tripas se rompendo no espaço, sangue escorrendo pelas paredes ou palavrões em cada balão, mas porque trata do tema solidão e do tema responsabilidades de frente, numa visada que não se esconde em soluções rápidas. O desespero do Astronauta dentro da solidão de ambiente desconhecido só é rivalizado pelo seu senso de dever para com sua missão, em um primeiro momento, e para com os outros, posteriormente. No ponto da virada, por sinal, dois destaques importantes: a maneira como Beyruth retrata a Ritinha e as cores de Cris Peter. Cris é uma grande conhecedora da técnica, mas seu trabalho nunca tinha sido tão bem utilizado quanto aqui. Trabalhando com palheta limitada, ela se atém ao que a história precisa e cria ambientes muito propícios para aquilo que o Astronauta está vivendo. No que estou chamando de “ponto da virada” então, as cores de Peter brilham de maneira espetacular. Fora das páginas da história, mas dentro do projeto Astronauta – Magnetar como um todo, é possível ver essa empreitada como também um abandono do berço. Os personagens de Maurício de Sousa já foram reinterpretados por inúmeros outros artistas (basta lembrar os 150 que compuseram os especiais MSP lançados recentemente), mas nunca antes tinham tido esse formato. Talvez não seja arriscar tanto assim um lançamento que traz a marca Maurício de Sousa na capa, mas, ao mesmo tempo, nada pode ser mais arriscado, uma vez que já existem décadas de expectativas a respeito do que essa marca representa. Se o primeiro lançamento de um novo selo da Maurício e Sousa Produções não fosse tão bom quanto ou melhor do que as expectativas, seria o primeiro e último. Um fiasco nas mãos de quem acumulou quase que apenas sucessos ao longo de vários anos. Aquele velho ditado de que a corrente é tão forte quanto o seu elo mais fraco e essa coisa toda.

E agora qual será o próximo passo para além do berço? Nas palavras de Buzz Lightyear, para o infinito e além!

Para Gusman, é importante que Astronauta – Magnetar, e que os outros livros do selo Graphic MSP, sejam histórias acessíveis para quem não acompanha esses personagens há anos e/ou para quem nunca ouviu falar deles. Assim, Magnetar é uma ficção-científica – que, como toda boa ficção-científica, faz pensar no agora – A Turma da Mônica será a história de um grupo de amigos, a Graphic MSP do Chico Bento vai falar sobre um roceiro que é posto em um ambiente estranho e a revista do Piteco será sobre um neandertal que conserva, claro, as particularidades e licenças anacrônicas do mundo para o qual foi criado. Isso porque a idéia é transpor as barreiras nacionais e lançar essas revistas em mercados estrangeiros. Não é por acaso que esses personagens foram escolhidos. As primeiras quatro edições das Graphic MSP vão, literalmente, da pré-história ao espaço sideral. Ou seja, os esses quatro números abrangem uma parte considerável do espectro criado por Maurício de Sousa. Será espantoso se os próximos álbuns não trouxerem essa mesma variedade, com, por exemplo, histórias que vão da Turma do Penadinho até o Anjinho ou algo que o valha.

Enquanto aguardamos novidades dos próximos, vamos relendo Astronauta – Magnetar, essa bela obra brasileira que ainda vai dar o que falar mundo afora. E, quem sabe, até além!

Boa viagem.

2 comentários Adicione o seu

  1. Bela análise da cena atual, Damasceno.
    Mandou bem!

    1. Leandro Damasceno disse:

      Valeu, Felipão! ‘Brigado mesmo. E, no mais tardar, nos encontramos no FIQ do ano que vem, hein?

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