Para os que estão e vão continuar aqui

em

Ao longo dos anos da ditadura, vividos no Brasil entre 1964 e 1985, havia uma falácia governamental, cantada em verso e pregada em adesivos, que proclamava que o sentimento da população brasileira em relação ao próprio país deveria ser “Ame-o ou Deixe-o”. O que é uma frase forte, mas, dado o contexto da época, mentirosa. O que se queria dizer com isso era “ame-o da maneira que nós deixarmos ou, se tiver sorte e não morrer enquanto estiver sendo torturado, nós te expulsaremos sem muitos hematomas”. Apesar de mais perto da verdade, esta segunda frase não foi adotada como slogan do governo militar. Talvez por não ter o mesmo apelo imediatista da primeira, ou por não ser tão fácil de decorar ou porque iria gerar adesivos maiores e mais caros. Pura questão de marketing, é claro…

Ao nos depararmos com episódios de violência arbitrária de qualquer instância da aparelhagem estatal, as memórias daqueles anos fechados veem à tona, seja por quem os viveu, seja por quem estudou sobre eles, como é o meu caso. Em 1980, o rock nacional já estava em pleno movimento de retorno, as liberdades individuais davam sinal de que seriam uma realidade novamente, o Congresso Nacional aprovou as eleições diretas para governadores dos Estados e Distrito Federal, Eveline Schröeter foi coroada Miss Brasil, René Arnoux foi campeão do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, nosso país foi 17º colocado nas Olimpíadas de Moscou – onde o mundo chorou junto do ursinho Misha –, o Papa João Paulo II visitou o Brasil pela primeira vez e, mesmo tendo sofrido um aborto espontâneo no ano anterior, minha mãe conseguiu levar a gravidez que me gerou até o final. Motivos para voltar a sorrir estavam por toda parte.

Não me lembro dos movimentos das “diretas já” e tive a sorte de ter pais que não foram presos ou torturados, mas que, ao mesmo tempo, me educaram para ter a noção do que significava viver no Brasil antes dos anos 80. Especialmente depois do final de 1969, quando a ala conservadora dos militares apertou o cerco e nós deixamos de ser governados para sermos vítimas do nosso próprio governo. Assim, para os que, como eu, não viveram tais tempos sombrios, mas que entendem o que aqueles significaram, o cerceamento de liberdades e a violência policial fazem parte do inconsciente coletivo. Revivemos o que não foi do nosso tempo e experienciamos parte do que foi o não poder falar daqueles 21 anos duros.

Alguns meios de comunicação e os relatos oficiais que insistem em esconder verdades são representativos daqueles momentos. Lembremos que, na versão da Polícia Militar, a guerra da semana passada em São Paulo deixou 12 policiais feridos e nenhum civil. Como se as fotos, os vídeos, os depoimentos, os relatos de si captados no lugar ou compartilhados após os eventos fossem frutos da imaginação. Como se os feridos nos olhos, nas pernas, nas almas, fossem construtos montados no éter e dispensados numa Avenida Paulista imaginária, que, por determinação de algum semideus traquinas, se tornou a Avenida Paulista real. Não e renão. Aquilo aconteceu de verdade, pessoas se machucaram e foram machucadas, a brutalidade deu o tom, as bombas deram a batida e as balas, a cadência. Ainda assim, há quem insista em esconder – atrás de um discurso que mistura desprezo por quem se rebelou com revolta pelos transtornos que estes transtornos causaram – que existem problemas sérios no Brasil.

As melhorias às quais o país tem direito independente de qualquer evento, nem com Copas e Olimpíadas foram feitas. O preço das coisas dispara, a inflação volta a ser uma questão séria, os políticos aumentam os próprios salários, diminui os salários de professores, a FIFA manda e desmanda e não consegue organizar nem a distribuição de ingressos, a polícia bate, a população apanha e a revolta aumenta. Aqueles motivos para sorrir de antes não são mais tão motivadores. Cada um tem suas próprias demandas. Não é por acaso que a polícia reclama da falta de liderança dos movimentos que se mobilizam junto aos estádios. São tantos os problemas que o Brasil enfrenta, que se pode trocar de bandeira a cada quilômetro caminhado numa marcha qualquer de protesto, sem que se esgotem os temas que deveriam ser abordados pelos políticos dos país, ainda que a marcha vá de uma ponta a outra da grande São Paulo.

É estranho lembrar que muitos políticos hoje no governo fizeram parte daquelas manifestações contra o “ame-o ou deixe-o” de outros tempos. Podemos apenas imaginar o que se passa na cabeça destas pessoas que tomaram borrachada das forças de repressão há quase vinte anos, ao verem que são eles agora que seguram os fios atados aos braços dos fantoches que batem. Será que olham com olhos tristes ou o poder dá uma perspectiva antes impossível?

Pode parecer contraditório, mas não duvido que estes políticos amem o país de verdade. À maneira deles, que para mim se mistura com certa obrigação nacional de compensá-los pelos sofrimentos aos quais foram submetidos, mas amam ainda assim. E, também por motivos que julgo serem diferentes daqueles dos políticos, não queremos abandonar o barco. Amamos e ficamos por motivos distintos, mas sinceros em suas particularidades, porque é assim que se ama e se deixa. Cada um tem seus motivos.

Aqui embaixo, queremos que o fato de amar o Brasil seja menos um ato de fé no que pode ser e mais uma realidade fundada no que é. Aqueles que se manifestam agora, o fazem (além de tudo) também por amor, deste amor que não escolhe maneira de ser e nem se conforma em seguir regras de amar determinadas por governanças. É um amor plural, que se expressa das mais variadas formas. Às vezes, sim, vamos puxar a orelha deste nosso amor, porque não acertamos todos sempre, mas temos que ter a noção de que não o estamos fazendo para prejudicar. É para melhorar e para edificar o amor, para que o simples ato de amar o Brasil seja menos oneroso e mais feliz.

Queremos, claro, que outras pessoas e povos o amem também. Mas sabemos que estes outros povos não possuem a embebida pré-disposição de amar nosso país que nos é inerente. Temos que fazer por onde. Com movimentos que informem que não estamos gostando do que acontece por aqui, com vaias aos políticos que acreditam que somos idiotas, com festa a cada gol do Brasil, com aplausos de reconhecimento aos craques de outros times, com questionamentos aos desmandos, com empatia pelos desmandados. Torcemos para que tudo funcione em parte para que as pessoas possam voltar mais vezes ao Brasil, dizendo o quanto gostaram de estar aqui, mas, principalmente, porque nós não o deixaremos e é preciso fazer com que o Brasil funcione para nós mesmos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s